Tem uma lista que nenhuma mulher escreve e todas carregam. Ela não fica na porta da geladeira nem no aplicativo de tarefas. Fica num lugar mais fundo, atrás dos olhos, perto de onde mora a insônia.
Lembrar do aniversário da sogra. Perceber que a amiga sumiu do grupo. Notar que o filho está calado demais desde terça. Saber que o remédio do pai acaba na sexta. Perguntar se ele dormiu bem, depois de uma noite em que você não dormiu nada.
Eu leio listas assim o tempo todo. Elas chegam disfarçadas de desabafo, de “não sei por que estou tão cansada”, de “deve ser a idade”. Mas não são desabafo. São inventário. Tudo isso tem nome, e o nome é cuidado no relacionamento. Um cuidado que, na maioria das casas que eu conheço por carta, cai no colo de uma pessoa só.
Cuidar não é dom. É trabalho com outro nome
A gente cresceu ouvindo que mulher tem jeito para cuidar. Que é da natureza. Que menina já nasce sabendo embalar boneca, servir café, perguntar se a visita quer mais um pedaço de bolo.
Ninguém nasce sabendo. A gente aprende, e aprende cedo, observando a mãe que comia por último, a avó que dormia de olho aberto, a tia que lembrava de todo mundo e ninguém lembrava dela. Aprende e pratica tanto que um dia esquece que aprendeu. Aí vira dom. E dom, você sabe, não se paga, não se agradece, não se divide.
É esse o truque mais antigo do mundo: quando o trabalho de uma pessoa é chamado de vocação, ele fica invisível. E o que é invisível não entra na conta de ninguém.
Quintana tinha um jeito de dizer coisas grandes como quem comenta o tempo. Eu me arrisco aqui num jeito parecido: cuidado que só uma pessoa carrega não é amor. É mudança feita sozinha.
Os sinais de que o cuidado ficou torto
O desequilíbrio quase nunca aparece numa cena de novela. Não tem prato quebrado, não tem porta batendo. Ele chega aos poucos, como goteira, e quando você vê o teto já está manchado:
- Você é a única pessoa que percebe quando alguma coisa precisa ser feita.
- Quando você para de lembrar, as coisas simplesmente não acontecem, e ninguém parece notar o buraco.
- Descansar dá culpa, como se você estivesse abandonando um posto de vigia.
- O seu “como você está?” sai todo dia, para todo mundo. O dos outros para você é raro, e quando vem é rápido.
- Você ouve “era só ter pedido”. Como se pedir também não fosse trabalho. Como se lembrar de pedir não cansasse.
Esse último ponto merecia um texto inteiro, e ganhou: escrevi sobre a carga mental no relacionamento, essa mania que a vida tem de colocar a agenda da casa inteira dentro da cabeça de uma mulher só.
Quem cuida de quem cuida
Tem uma ironia que me dói. As pessoas que mais cuidam costumam ser as menos cuidadas.
Não é crueldade de ninguém. É costume. Criou-se a ideia de que elas aguentam, que dão conta, que são fortes. E elas são. São tão fortes que um dia acordam sem conseguir levantar da cama e não entendem por quê. O corpo, que não sabe mentir, faz a greve que a boca nunca teve coragem de fazer.
Cuidar de quem cuida começa com coisas pequenas, quase bobas:
- Escreva a lista invisível. Pegue papel e caneta e anote tudo o que você sustenta. Inclusive o que ninguém vê: lembrar, prever, perceber, organizar. Você vai se assustar com o tamanho. E é bom que o outro se assuste também.
- Divida a responsabilidade, não só a tarefa. Pedir para alguém levar o lixo é diferente de essa pessoa ser responsável por perceber que o lixo encheu. A primeira coisa é ajuda. A segunda é divisão.
- Aceite o jeito do outro. Se você corrige cada prato lavado, ele aprende que não adianta tentar. Diferente não é errado. Às vezes é só diferente.
- Receba sem pedir desculpa. Alguém fez o almoço? Diga obrigada e sente. Não levante para ajeitar a mesa. Parece pouco. Para muitas de nós, é uma revolução.
- Peça cuidado em voz alta. “Hoje eu preciso que alguém cuide de mim.” Não é fraqueza. É informação.
Às vezes cuidar é deixar de cuidar
Agora deixa eu ser honesta, porque contradição também mora aqui, e eu prometi nunca fingir que a vida é simples.
Nem todo cuidado é generoso. Às vezes a gente cuida para controlar. Para ser indispensável. Para não ter que olhar para o próprio vazio. Tem um cuidado que é quase um esconderijo: enquanto estou ocupada com a vida de todo mundo, não preciso perguntar o que eu quero da minha.
Cuidar demais de alguém também tira dessa pessoa a chance de crescer. O filho que nunca aprendeu a fritar um ovo, o marido que não sabe onde fica o documento do carro, a amiga que só liga quando precisa. Às vezes, o maior cuidado é dar um passo para trás e deixar o outro tropeçar um pouco.
Se isso soou familiar, talvez valha ler sobre como colocar limites sem culpa. Limite também é cuidado. Inclusive com a relação, que precisa de ar para continuar viva.
O que eu desejo para você
Eu desejo que um dia alguém perceba antes de você pedir. Que alguém lembre da sua consulta, do seu cansaço, da sua vontade de ver o mar. Que você possa ficar doente sem a casa desabar. Que o cuidado circule, como circula o ar numa casa de janelas abertas.
E, enquanto isso não acontece, desejo que você comece por você. Um banho sem pressa. Uma tarde sem utilidade. Um “não” dito sem explicação.
A pergunta que eu deixo
Quem cuida de você hoje? Não quem diz que se importa. Quem faz alguma coisa concreta, sem você precisar lembrar, pedir, conferir.
Se a resposta demorou para chegar, não é defeito seu. É só um sinal de que o verbo cuidar, na sua vida, está sendo conjugado numa pessoa só. E nenhuma relação se sustenta assim por muito tempo. Nem a relação com a gente mesma.
Diana






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