Mãe,
Comecei esta carta umas cinco vezes. Na primeira, ela virou uma declaração de amor tão exagerada que parecia cartão de Dia das Mães de papelaria. Na segunda, virou uma lista de mágoas tão comprida que eu tive vergonha de mim. Na terceira, eu só escrevi “mãe” e fiquei olhando a palavra até ela perder o sentido, como acontece quando a gente repete um nome muitas vezes.
Acho que é assim mesmo que funciona a relação mãe e filha. As duas coisas ao mesmo tempo. O amor e a mágoa morando no mesmo quarto, dividindo o mesmo travesseiro, às vezes na mesma frase.
O que eu aprendi com você
Aprendi a fazer arroz soltinho, refogando o alho até ele ficar dourado e nem um segundo a mais. Aprendi a nunca sair de casa sem um casaco “por via das dúvidas”, mesmo no calor de fevereiro. Aprendi a arrumar a casa antes da visita chegar, mesmo que a visita fosse a vizinha que já tinha visto tudo.
Aprendi a rir alto e a chorar escondido. Aprendi que segunda-feira é dia de faxina e domingo é dia de ligar para a avó. Aprendi a guardar sacola plástica dentro de outra sacola plástica, numa matrioska infinita que eu até hoje mantenho embaixo da pia.
E aprendi a dar conta de tudo. Esse último, mãe, eu estou tentando desaprender. Devagar, com recaídas, mas tentando.
O que eu também herdei
Você me ensinou a cuidar de todo mundo. Mas eu nunca te vi sendo cuidada.
Te vi servindo o prato de todos antes do seu, e comendo o que sobrava em pé, na beira do fogão. Te vi dormindo depois de todo mundo e acordando antes. Te vi dizendo “eu tô bem” com uma cara que gritava o contrário. Te vi no hospital acompanhando a avó com a mesma blusa por três dias.
Eu não te culpo. De verdade. Você fez o que te ensinaram, com o que você tinha, num tempo em que mulher que reclamava era chamada de nervosa. Só que hoje eu me pego repetindo os mesmos gestos, e às vezes me assusto. Olho no espelho do banheiro e vejo o seu jeito de franzir a testa. Ouço a minha voz falando com os outros e reconheço o seu tom.
Pensei em você o tempo inteiro enquanto escrevia Cuidar é verbo. Acho que aquele texto, no fundo, era para você.
O que a gente não diz
A gente não fala do seu casamento. Nem do que deu certo, nem do que não deu. A gente não fala daquela fase em que você ficou muito triste e ninguém deu nome, e a casa toda andava na ponta dos pés. A gente não fala de por que você parou de estudar quando eu nasci. A gente não fala das coisas que você me disse quando eu tinha 15 anos e que eu ainda carrego, dobradas, num bolso que não aparece.
E você também não sabe muita coisa de mim. Não sabe das vezes em que eu precisei de você e não liguei. Achei que você ia transformar a minha dor em preocupação, e a preocupação em sermão, e o sermão em silêncio ofendido. Então eu fiquei sozinha com as coisas, achando que estava te poupando.
Talvez a gente se pareça mais do que eu gostaria de admitir. Duas mulheres protegendo uma à outra com o pior jeito possível: não dizendo.
A mulher antes da mãe
Outro dia achei uma foto sua com uns 22 anos. Cabelo armado, vestido estampado, uma risada que eu nunca vi ao vivo. Fiquei muito tempo olhando. Quem era essa moça? Do que ela gostava? Para onde ela queria ir antes de a vida decidir por ela?
Clarice tem uma maneira de olhar o cotidiano até ele revelar um abismo, e eu senti isso diante da foto. Um susto. A descoberta de que minha mãe foi, antes de tudo, uma pessoa. Uma menina com medos e vaidades e planos que não couberam na vida que veio.
O que eu queria te dizer
Obrigada pelo que você me deu. Inclusive pelo que você não tinha para dar e deu mesmo assim, tirando de algum lugar que eu nem sei onde fica.
Me desculpa pelas vezes em que fui dura esquecendo que você também foi filha. Também teve uma mãe que não soube dizer as coisas. Também carregou mágoas dobradas no bolso.
E, se você quiser, eu gostaria de te conhecer de novo. Não como mãe. Como mulher. Perguntar do que você gostava aos 20. Que música te fazia dançar. O que você queria ter sido. O que você ainda quer. Porque eu acho que ainda dá tempo. Para você e para nós.
Para quem lê
Das histórias que chegam até mim, as de mãe e filha estão entre as mais difíceis. E entre as mais bonitas. Tem mãe que machucou muito. Tem mãe que amou do jeito torto que sabia. Tem mãe que já foi embora e deixou conversa pela metade.
Se a sua relação é complicada, saiba: complicado não é sinônimo de sem amor. E sem amor também não é obrigação de perdoar. Cada história tem seu tamanho.
Algumas relações pedem distância, e distância também pode ser cuidado. Outras pedem conversa. Para as conversas, deixei umas ideias para ter uma conversa difícil sem virar briga. E, se a mágoa ainda pesa, talvez Perdoar é verbo faça sentido agora.
Se ainda dá tempo, liga para ela hoje. Não precisa dizer nada importante. Pergunta da novela, da vizinha, do joelho. Às vezes o amor só precisa de um assunto bobo para atravessar a linha.
Com amor, do jeito que eu sei,
Diana






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