Escutar é verbo: a diferença entre ouvir e escutar

Ouvir acontece. Escutar se faz. Diana explica a diferença entre ouvir e escutar e por que a escuta de verdade muda o que a gente vive a dois.

Por Diana

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Ilustração da Diana de olhos fechados, com a mão atrás da orelha, escutando.

Hoje de manhã eu escutei o café. Não o barulho da cafeteira, que esse a gente ouve sem querer, como ouve o vizinho de cima arrastando a mesma cadeira há onze anos. Escutei o café mesmo: aquele chiado pequeno de quando a água encontra o pó e muda de nome. Fiquei parada na cozinha, de pijama, sentindo uma coisa estranha, quase uma vergonha. Quanto tempo fazia que eu não escutava nada?

Porque há uma diferença, e ela é enorme, entre ouvir e escutar. Ouvir é o que o corpo faz por educação. O som entra, o cérebro arquiva, a vida segue. Escutar é outra coisa. Escutar é deixar que o som te atravesse e mude alguma coisa lá dentro. É mais perto de rezar do que de prestar atenção.

E se eu não escuto nem o café, imagine as pessoas.

Ouvir é automático. Escutar é uma escolha que custa

Eu leio muitas cartas. E a frase que mais aparece nelas, com variações de sotaque e de dor, é esta: ele me ouve, mas não me escuta. Às vezes é ele. Às vezes é a mãe, a irmã, a amiga de infância, a chefe que balança a cabeça enquanto olha o relógio. Às vezes, e isso quase ninguém escreve, é a própria mulher que me escreve. Ela não se escuta faz anos.

Ouvir não exige nada da gente. Escutar exige quase tudo. Exige que eu pare de ensaiar a minha resposta enquanto você ainda está falando. Exige que eu aguente não saber o que dizer. Exige que eu deixe a sua frase terminar, mesmo quando eu já adivinhei o final, porque talvez eu tenha adivinhado errado. E quase sempre adivinhei.

Eu desconfio que as coisas mais importantes cabem em pouca palavra. E acho que escutar é isso: dar espaço para a palavra pouca. A que vem depois do silêncio. A que a pessoa quase não diz.

Os sinais de que você está só ouvindo

Não digo isso de cima de nenhum pedestal. Eu me pego nestas cenas o tempo todo:

  • Você já sabe a resposta antes de a pessoa terminar a frase, e fica esperando a vez como quem espera o ônibus.
  • Enquanto ela fala, você vai editando por dentro o que vai dizer, cortando, melhorando, quase decorando.
  • A conversa sempre dá um jeito de voltar para você. Para a sua história. Para aquela vez em que aconteceu com a sua prima.
  • Você responde rápido demais, com solução pronta, como quem fecha um chamado de atendimento.
  • O celular está virado para baixo na mesa, mas a sua cabeça continua no grupo da família.

Nada disso faz de ninguém uma pessoa ruim. Faz de nós pessoas apressadas, num mundo que dá medalha para quem responde primeiro. Só que relação não é gincana. Ninguém ganha nada chegando antes.

A vontade de consertar

Existe uma armadilha bonita, e é nela que eu mais caio. É a vontade de consertar.

A gente aprendeu, desde pequena, que amar é resolver. A mãe resolvia, a avó resolvia, a tia que fazia promessa resolvia. Então quando alguém começa a contar uma dor, nós já estamos com o plano em três etapas na ponta da língua. Você devia conversar com ele. Você devia procurar uma terapeuta. Você devia sair desse emprego.

Mas, muitas vezes, quem fala não quer ser consertada. Quer ser acompanhada. Quer alguém sentado do lado, no degrau da escada, olhando para o mesmo nada. Quer que a dor tenha testemunha.

Escutar, nesse sentido, é uma forma de humildade. É admitir que a vida do outro não é um problema de matemática que eu resolvo com a minha experiência. É um mistério. E mistério não se resolve. Se acompanha.

Como escutar de verdade, sem fórmula

Não acredito em receita para coisa viva. Mas acredito em gestos pequenos que, repetidos, viram jeito de ser. Estes me ajudaram:

  1. Pergunte antes de opinar. “Você quer que eu só escute ou quer ajuda para pensar?” Essa pergunta, tão simples, desarma metade das brigas que me chegam por carta.
  2. Devolva com as suas palavras. “Deixa eu ver se entendi: o que doeu foi menos o atraso e mais o silêncio, é isso?” A pessoa sente que chegou. E, se não chegou, tem a chance de corrigir.
  3. Aguente o silêncio. Quando a outra pessoa para de falar, não preencha. Conte até cinco por dentro. A parte mais verdadeira quase sempre vem depois da pausa, como a chuva que só cai quando a gente desiste do guarda-chuva.
  4. Olhe para a pessoa, não para a resposta. Repare na mão que torce a alça da bolsa, no riso que vem fora de hora, no “tá tudo bem” dito rápido demais.
  5. Guarde o celular de verdade. Na bolsa, no outro cômodo, longe. Escuta dividida não é escuta. É ouvido emprestado.

Escutar a si mesma também é verbo

Agora a parte que mais me comove nas histórias que recebo.

Há mulheres que escutam o mundo inteiro. Acolhem a amiga às duas da manhã, mediam a briga dos irmãos no almoço de domingo, entendem o marido, o filho, a sogra, o porteiro. E chegam à noite sem saber o que estão sentindo. A raiva ficou para depois. O cansaço ficou para depois. O desejo, coitado, nem entrou na fila.

Escutar a si mesma é talvez o verbo mais adiado da vida adulta. E ele começa igual ao outro: parando. Sentando cinco minutos sem fazer nada útil. Perguntando para o próprio corpo, como quem pergunta para uma amiga: o que é que você tem? E esperando a resposta, mesmo que ela venha torta, em forma de dor nas costas, de vontade de chorar no trânsito, de preguiça daquela festa.

Se esse tema mexeu com você, eu escrevi sobre o que acontece quando o cuidado vira peso de uma pessoa só. E juntei também algumas ideias para ter uma conversa difícil sem virar briga, porque às vezes escutar é só o primeiro passo de uma conversa que precisa acontecer.

O que muda quando a gente escuta

Muda pouco e muda tudo. A conversa fica mais lenta. As brigas ficam mais curtas. Os filhos contam mais coisas. As amigas voltam a ligar. E a gente descobre, com alguma surpresa, que sabia muito pouco das pessoas que achava conhecer de cor.

Escutar é um jeito de dizer você existe para mim. Sem discurso, sem presente, sem post de aniversário. Só presença.

Uma pergunta para levar no bolso

Quando foi a última vez que alguém te escutou inteira? Sem pressa, sem conselho, sem plateia.

E quando foi a última vez que você fez isso por alguém?

Hoje, se der, escute uma coisa só. O café, a chuva, a voz da sua mãe no telefone, o seu próprio cansaço. Uma coisa só, do começo ao fim. Depois me conta o que mudou.

Escutar não resolve a vida. Mas quase nada na vida se resolve sem ele.

Diana


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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Escrevo sobre o que a gente sente e não fala no almoço de domingo. Se algum texto te cutucou, me conta. Não prometo resposta pronta, só boa companhia.

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Comentários

3 respostas a “Escutar é verbo: a diferença entre ouvir e escutar”

  1. […] Muita briga acontece porque as duas pessoas falam ao mesmo tempo e ninguém escuta. Escrevi um texto inteiro sobre isso: Escutar é verbo. […]

  2. […] eu pego um verbo da vida afetiva e olho pra ele de perto. Comecei com escutar, cuidar, perdoar e […]

  3. […] importa para o outro, e por isso sabe o que não pode quebrar. Escrevi sobre isso quando falei de escutar como verbo, e continuo achando que uma coisa mora dentro da […]

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Ilustração em nanquim da Diana

Aqui a Diana conjuga os verbos do afeto: cartas, crônicas e conversas sobre o jeito como a gente se relaciona.

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