Panorama da Saúde Mental 2026: solidão é o fator que mais pesa, e ver amigos ajuda

Panorama da Saúde Mental 2026, do Instituto Cactus e AtlasIntel: 36,5% relatam solidão, e encontrar amigos aparece ligado a uma saúde mental melhor.

Por Diana

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Ilustração da Diana rindo com duas amigas de roupa preta, uma de cabelo curto cacheado e outra de trança, em volta de uma mesinha de café com três xícaras, diante de um círculo vermelho.

Li a notícia no celular, sentada no ônibus, e por um momento levantei os olhos para ver quem estava em volta. Uma moça de uniforme dormindo encostada na janela. Um senhor segurando uma sacola de feira. Dois adolescentes dividindo um fone. Fiquei pensando quantas daquelas pessoas tinham se sentido sozinhas nas últimas duas semanas. Segundo a pesquisa que eu acabava de ler, mais de uma em cada três.

O Panorama da Saúde Mental 2026, levantamento do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, foi divulgado em outubro e trouxe um dado que me fez fechar o aplicativo e ficar olhando pela janela: entre todos os fatores analisados, a solidão é o que aparece mais fortemente associado a uma saúde mental pior no Brasil. Mais do que eu imaginava. E, ao mesmo tempo, a pesquisa aponta um antídoto tão simples que chega a ser comovente: encontrar os amigos.

O que é o Panorama da Saúde Mental

O Panorama é uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Cactus, organização dedicada à saúde mental, com a AtlasIntel, empresa de ciência de dados. Segundo o próprio instituto, esta é a quinta edição do levantamento. Nesta rodada foram ouvidas 4.601 pessoas de todas as regiões do país.

Para medir o estado emocional da população, o estudo usa um índice próprio, o ICASM, Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental, que vai de 0 a 1.000 pontos. Quanto maior a nota, melhor a saúde mental. A média nacional ficou em 671 pontos, considerada estatisticamente estável em relação a 2025, segundo o Instituto Cactus.

As reportagens que li não detalham o período de coleta nem a margem de erro, então vou ficar só com o que foi publicado.

Solidão: o dado que mais pesa no Panorama da Saúde Mental

De acordo com a pesquisa, 36,5% dos brasileiros disseram ter se sentido sozinhos ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à entrevista. E a diferença no índice de saúde mental entre quem sente solidão com frequência e quem não sente é enorme:

  • Quem relatou se sentir sozinho três vezes ou mais no período teve média de 383 pontos no ICASM.
  • Quem não relatou solidão ficou com 782 pontos.

É mais do que o dobro. Li esses números duas vezes, como quem confere o troco.

Quem está mais sozinho

A pesquisa também mostra alguns recortes que ajudam a entender onde a solidão aperta mais:

  • Entre pessoas solteiras, 51,7% relataram solidão. Entre as casadas, 26,6%.
  • Entre quem tem conflitos familiares frequentes, o índice de solidão chega a 84,2%.
  • Entre quem usa redes sociais de forma intensa, três horas ou mais por dia, 46,8% relataram solidão, contra 26,1% entre os que usam de forma moderada.

O dado das brigas de família me tocou especialmente. A gente costuma pensar na solidão como a falta de gente por perto. Mas ela pode muito bem morar numa casa cheia, num almoço de domingo em que todo mundo fala e ninguém se escuta. Já escrevi sobre essa estranheza de estar acompanhada e sozinha, e ela aparece aqui em forma de estatística.

Encontrar amigos faz diferença

Agora a parte que eu queria sublinhar com caneta vermelha. Segundo o Panorama, conviver com amigos está entre os fatores associados a melhores indicadores de saúde mental, ao lado da atividade física e do trabalho voluntário. Quem encontrou amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa teve média de 737 pontos no índice. Quem não encontrou ficou em 539, segundo os dados divulgados pela imprensa.

Não é um café com a amiga que resolve uma depressão, e a pesquisa não diz isso. Mas ela mostra uma associação forte entre ver gente querida e se sentir melhor. Combina com o que outros estudos já apontavam e que contei quando escrevi sobre como ter um amigo próximo faz bem à saúde depois dos 50.

Fiquei pensando na quantidade de vezes que eu mesma adiei um encontro por cansaço. “Vamos marcar”, a gente diz, e o marcar vira uma promessa que mora no grupo do WhatsApp sem nunca sair dali.

A inteligência artificial como companhia

Outro achado do Panorama chama atenção. Entre as pessoas que relatam solidão frequente, 32,1% disseram ter buscado companhia em ferramentas de inteligência artificial. Na população geral, 8,8% disseram ter recorrido à tecnologia para se sentir menos sozinhos ou buscar interação, e 9,1% já usaram chatbots para simular sessões de terapia.

A especialista em saúde mental do Instituto Cactus, Mariana Rae, comentou o fenômeno em reportagem da Folhapress: “Existe uma falsa sensação de conexão, mas ela ocorre com uma máquina”. Sobre a relação entre os dois problemas, ela explicou que uma saúde mental inferior tende a levar mais à solidão, e que o estado de solidão também afeta a saúde mental. Um ciclo, portanto.

Já tínhamos visto algo parecido entre os mais novos, quando contei aqui sobre estudantes que usam inteligência artificial como companhia. Agora o retrato se amplia para o país inteiro.

Morar sozinha não é o mesmo que estar sozinha

Uma fala da reportagem me fez sorrir. Sandro Batista Rodrigues, diretor de pesquisa da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, lembrou que “uma pessoa pode morar sozinha e ter vínculos fortes”. Achei importante, porque a gente tende a confundir as coisas. Solidão não é endereço. É a sensação de não ter com quem contar.

E há uma boa notícia escondida nos dados: as pessoas com 60 anos ou mais tiveram a melhor média da série, 806 pontos no índice. A maturidade, pelo visto, também ensina a cultivar vínculos.

O que eu levo dessa pesquisa

Não gosto de transformar estudo em lição de moral. Mas também não consigo ler um dado desses e seguir a vida como se nada fosse. Então deixo três pensamentos, sem pretensão de receita:

  1. Solidão não é fraqueza nem fracasso pessoal. Ela atravessa mais de um terço do país e tem relação com dinheiro, trabalho, família e redes sociais.
  2. Ver os amigos não é luxo nem perda de tempo. É cuidado.
  3. Se você está se sentindo sozinha, você está em muita companhia, ainda que pareça paradoxo.

Já tinha falado da solidão no Brasil a partir de outro levantamento, e se você quer ideias práticas para criar vínculos, juntei algumas em como fazer amigos depois dos 30.

Se a solidão estiver pesada

Uma pesquisa fala de milhões de pessoas, mas cada uma tem um nome. Se você se reconheceu nesses números e a tristeza anda grande demais, procure ajuda. O CVV atende pelo 188, de graça e a qualquer hora, e também por chat no site. Uma psicóloga ou o posto de saúde mais perto de você também são caminhos. Este texto é uma leitura editorial de uma pesquisa e não substitui terapia nem acompanhamento profissional.

Fonte(s)

Diana


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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