Carta para minha avó: o que ela me ensinou sobre o amor que dura

Uma carta para minha avó, a mulher do café passado no coador de pano, sobre o amor que dura, o que ela calou e o que ela me ensinou sem dizer.

Por Diana

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Ilustração da Diana sentada a uma mesinha redonda com a avó de cabelo branco preso em coque, as duas de mãos dadas entre xícaras de café e um bule, diante de um círculo vermelho.

Vó,

Escrevo do jeito que a senhora gosta, à mão primeiro, numa folha de caderno, com a caneta azul que sempre falha na terceira linha. Depois passo a limpo aqui, porque a sua neta virou uma mulher que escreve em tela. A senhora acha graça disso. Diz que palavra boa tem que ter cheiro de papel.

Esta é uma carta para minha avó, mas confesso que ela também é uma carta para mim. Faz tempo que eu quero entender uma coisa que a senhora sabe e eu não sei: como é que um amor dura sessenta e dois anos sem virar só costume.

Por que escrevo esta carta para minha avó

Fui visitar a senhora no domingo passado. O almoço era o de sempre: arroz soltinho, feijão de panela de pressão, o frango assado com batata que a senhora jura que não tem segredo nenhum e que ninguém da família consegue repetir. O vô já não come muito. A senhora separou para ele o pedaço da coxa, sem pele, como faz desde que eu me lembro, e ele agradeceu com um aceno de cabeça, como faz desde que eu me lembro.

Fiquei olhando aquele gesto. Tão miúdo. Ninguém na mesa reparou. E eu, que passo os dias escrevendo sobre relações, senti que estava diante de um livro inteiro que eu ainda não sabia ler.

Por isso escrevo. Porque eu queria perguntar e não perguntei. A gente fica com vergonha de fazer as perguntas grandes no meio da sobremesa.

O café no coador de pano

A senhora lembra quando me ensinou a passar café? Eu tinha uns oito anos. A senhora segurou o coador de pano, aquele encardido de tanto uso, e disse que não podia jogar a água fervendo de uma vez. Tinha que ir devagar, em círculo, deixando o pó inchar. Disse que café com pressa fica amargo.

Eu achei que era só sobre café. Hoje desconfio que não era.

Porque olho para os meus amores, e os das minhas amigas, e vejo muita água jogada de uma vez. Muita vontade de que tudo se resolva na primeira conversa, de que o outro entenda tudo no primeiro áudio, de que a paixão dure sem ninguém mexer no fogo. E fica amargo. A gente acha que é o amor que azedou, quando às vezes foi só a pressa.

O que a senhora calou

Também quero dizer que não romantizo o seu casamento, vó. Sei que teve anos difíceis. Sei pela minha mãe, que me contou meio em segredo, das noites em que a senhora chorava na cozinha para ninguém ouvir. Sei que a senhora largou o emprego na costura porque o vô achava que mulher dele não precisava trabalhar fora, e que a senhora costurou escondido, para fora, por anos, guardando o dinheiro numa lata de biscoito.

Quando soube da lata, ri de orgulho. Depois fiquei triste. Quanta coisa a senhora teve que calar para que aquele amor durasse?

Escrevi há pouco uma carta para minha mãe sobre as coisas que a gente não diz, e percebo agora que esse silêncio vem de longe. Passou da senhora para ela e dela para mim. Talvez seja por isso que eu escrevo tanto: para quebrar uma corrente de bocas fechadas que começou antes de mim.

Não quero um amor que dure à custa do seu silêncio. Acho que a senhora também não quer isso para mim. Uma vez, lavando a louça, a senhora disse baixinho: “não faça como eu, faça melhor”. Eu tinha quinze anos e fingi que não ouvi. Ouvi, vó. Está tudo guardado.

O que a senhora me ensinou sem dizer

Mesmo assim, com tudo o que foi difícil, tem coisas que a senhora sabe e que eu quero aprender. Fiz uma lista, porque a senhora sabe que eu gosto de listas, igual à senhora com as compras da feira.

  • Que amor também é rotina, e rotina não é inimiga. O pedaço de coxa sem pele, todo domingo, é uma frase de amor repetida até virar oração.
  • Que dá para brigar e continuar. A senhora e o vô brigavam por causa do controle da televisão, da poupança, do cunhado. E no fim da noite estavam os dois no portão, vendo o movimento da rua.
  • Que cada um precisa do seu canto. A senhora tinha a máquina de costura. Ele tinha a horta. Ninguém invadia o reino do outro.
  • Que o corpo envelhece e a mão continua sabendo o caminho. Vi a senhora ajeitar a gola da camisa dele com o mesmo gesto da foto do casamento.
  • Que perguntar “já comeu?” é uma das formas mais antigas de dizer eu te amo.

O amor que dura não é o amor que não muda

Uma das coisas que mais me assusta, vó, é a ideia de um amor que precisa ficar igual para sobreviver. Mas o seu não ficou igual. Ele mudou de casa três vezes, mudou de corpo, mudou de assunto. Teve a fase dos filhos pequenos, a fase do dinheiro curto, a fase da doença do vô, a fase dos netos correndo pelo quintal. Em cada fase, os dois tiveram que se conhecer de novo.

Acho que é isso que eu não sabia. O amor que dura não é o que resiste à mudança. É o que aceita recomeçar dentro da mesma casa, com a mesma pessoa, muitas vezes. Isso me lembra o que escrevi sobre cuidar como verbo: cuidado bom não pode ser peso de uma pessoa só. Na velhice de vocês eu vejo, enfim, ele lavando a xícara da senhora. Demorou sessenta anos, mas veio.

O que eu quero levar

Vó, eu não sei se vou ter um amor de sessenta e dois anos. Talvez não. As mulheres da minha geração casam mais tarde, separam mais cedo, moram sozinhas, recomeçam aos quarenta, aos cinquenta. A senhora às vezes acha isso triste. Eu acho que é só outro jeito de procurar a mesma coisa.

O que eu quero levar da senhora não é a duração. É a atenção. Esse olhar que sabe qual pedaço do frango o outro prefere. Essa paciência de passar o café devagar. E também, de um jeito que talvez a senhora não planejou, a coragem da lata de biscoito: a certeza de que uma mulher pode amar alguém e ainda assim guardar um pedaço da vida só para si.

Minhas irmãs mandaram beijo. A do meio diz que vai aprender a fazer o frango. Não vai conseguir, mas a tentativa é bonita, como quase todas as tentativas desta família.

Domingo eu volto. Passo o café, se a senhora deixar. Prometo ir devagar.

Com todo o amor que eu ainda estou aprendendo a ter,

sua neta

Diana


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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