Querido,
Não sei se você ainda se lembra de mim, e confesso que essa dúvida me diverte mais do que me dói. Escrevo do balcão da cozinha, com um cafezinho que já esfriou, numa tarde em que a chuva de verão resolveu cair antes da hora. Arrumando uma caixa de sapato cheia de papel velho, achei a nossa foto. Você pedalando, eu na garupa da bicicleta, os dois rindo de alguma coisa que ninguém mais sabe o que era.
Foi aí que eu entendi que precisava te escrever. Não para reatar nada, não se assuste. Escrevo porque o primeiro amor é uma espécie de casa onde a gente morou muito pouco tempo e que, mesmo assim, ficou com a planta inteira guardada no corpo. E eu queria, enfim, devolver as chaves com educação.
O que o primeiro amor me ensinou sem querer
Você não sabia que estava me ensinando nada. Eu também não sabia que estava aprendendo. A gente tinha quinze anos e achava que o mundo terminava na esquina da escola. Mas foi com você que eu descobri algumas coisas que levei para a vida:
- Que o coração acelera antes da cabeça entender o motivo.
- Que esperar um telefonema fixo tocar pode ocupar uma tarde inteira.
- Que um bilhete dobrado em oito, passado de carteira em carteira, é capaz de mudar o humor de uma semana.
- Que a gente pode ser feliz e morrer de medo ao mesmo tempo.
E aprendi também, mais tarde, quando tudo acabou, que um fim não apaga o que foi bonito. Isso eu demorei muito para entender. Passei anos achando que, se uma história termina, ela fica errada desde o começo. Não fica. Uma história pode terminar e continuar tendo sido verdadeira.
A menina que eu era quando te conheci
Preciso te contar quem eu era, porque acho que você nunca soube direito. Eu era uma menina que lia escondido no recreio, que tinha vergonha das próprias pernas, que achava que amor era uma coisa que acontecia com as outras. Quando você me ofereceu metade do seu salgado na cantina, eu fiquei tão espantada que esqueci de agradecer.
Era isso o primeiro amor para mim: um espanto. A surpresa de ser escolhida por alguém. Eu, que me achava tão comum, de repente tinha alguém que guardava lugar para mim no ônibus da excursão. Já escrevi uma carta para a mulher que eu era aos 20, e hoje percebo que ela começou a nascer um pouco antes, ali, na sua garupa.
O que eu não soube te dizer
Algumas coisas ficaram engasgadas. Não por mágoa, mas porque eu não tinha palavras na época. Então vou dizer agora, com trinta e tantos anos de atraso:
Desculpa pelo fim
Fui eu quem terminou, lembra? Terminei por carta, inclusive, o que mostra que algumas manias não mudam. Terminei sem explicar direito, porque eu mesma não sabia o motivo. Hoje eu sei. Eu tinha medo de gostar tanto de alguém. Achava que, se continuasse, ia me perder em você. Fugi antes de descobrir se isso era verdade.
Obrigada pela delicadeza
Você nunca me apressou. Nunca riu dos meus silêncios, nunca fez piada das minhas espinhas, nunca contou para os seus amigos as coisas que eu te contava. Eu não sabia, aos quinze anos, que isso era raro. Fui descobrir depois, com outras pessoas, que a delicadeza não é regra. Você foi meu primeiro parâmetro, e um parâmetro alto.
Eu te reconheço em mim
Tem um jeito de rir que eu peguei de você. Uma música que eu ainda não consigo ouvir sem parar o que estou fazendo. Um gosto por bala de hortelã que, juro, não existia antes. A gente se mistura com quem ama, mesmo quando é pouco tempo. É isso que eu acho bonito e um pouco assustador: ninguém sai inteiro de um amor, nem do primeiro.
Por que o primeiro amor não precisa voltar
Vez ou outra aparece alguém nas redes contando que reencontrou o primeiro amor depois de décadas e casou. Eu acho lindo, de verdade. Mas também acho que a gente romantiza demais essa volta. Como se o primeiro amor fosse uma promessa não cumprida, uma conta em aberto.
Eu não sinto assim. O que tivemos cabia exatamente naquele tempo. Era do tamanho da nossa idade, da nossa rua, da nossa bicicleta. Se eu te encontrasse hoje na fila do mercado, talvez a gente nem tivesse assunto. E está tudo bem. O primeiro amor não precisa voltar para ter valido. Ele já está aqui, morando em algum canto de mim que eu visito às vezes, como quem passa na frente da antiga escola e diminui o passo.
Aprendi muito sobre recomeços desde então. Escrevi sobre isso em recomeçar depois de um término, e cada recomeço meu, de algum modo, carregou um pedaço daquela primeira vez.
O que eu desejo para você
Desejo que você tenha encontrado alguém que goste de dividir salgado na cantina da vida adulta. Que tenha filhos, ou cachorros, ou plantas, ou o que te fizer feliz. Que ainda pedale de vez em quando, nem que seja na ciclovia de domingo. Que tenha sido amado com a mesma delicadeza que você me deu.
E desejo, principalmente, que você também tenha guardado alguma coisa boa daquele tempo. Não precisa ser eu. Pode ser só a lembrança de ter sido corajoso o bastante para oferecer metade de um salgado a uma menina que olhava para o chão.
Para quem está lendo esta carta
Se você chegou até aqui, talvez tenha lembrado do seu. Talvez tenha sorrido, talvez tenha sentido uma pontinha de saudade, talvez tenha pensado “ainda bem que acabou”. Todas essas reações cabem. O primeiro amor não pede uma emoção só.
Deixo um convite: pegue um papel e escreva, nem que seja para ninguém ler. Agradeça o que puder agradecer, peça desculpas pelo que ficou torto, e devolva as chaves. A gente não precisa morar para sempre na primeira casa. Mas é bom lembrar que ela existiu. Minha avó dizia que amor de verdade deixa marca até quando vai embora, e ela entendia do assunto, como contei na carta para minha avó.
Quanto a você, querido, fica aqui o meu obrigada. Pela bicicleta, pelo salgado, pela delicadeza e até pelo fim. Foi com você que eu soube que o amor existia. Depois eu fui aprendendo o resto.
Com carinho de quem já não tem quinze anos, mas ainda se lembra de como era,
Diana






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