Todo sábado, às oito e pouco, a gente vai à feira. Ele empurra o carrinho de duas rodas, aquele xadrez que range na roda esquerda desde 2019. Eu vou na frente, decidindo. Na barraca do seu Toninho ele pede o pastel de carne, eu peço o de queijo, e trocamos metade sem combinar. Na volta, compramos pão na padaria da esquina e tomamos café na mesa da cozinha com a janela aberta, ouvindo o vizinho de cima ensaiar no violão a mesma música de sempre, sempre errando o mesmo acorde.
Ninguém nunca decidiu que seria assim. Simplesmente foi ficando. E um dia, quando ele viajou a trabalho e eu fui à feira sozinha, entendi que aquilo tinha nome. Eram os rituais do casal, essas pequenas cerimônias sem padre e sem convidados que seguram uma relação de pé muito mais do que os aniversários de namoro.
O que são os rituais do casal
Quando a gente pensa em ritual, pensa em coisa solene. Vela, roupa branca, palavras ditas em voz baixa. Mas a vida a dois está cheia de rituais desajeitados, que não parecem nada de mais. O beijo na testa antes de sair. O “chegou bem?” mandado sempre no mesmo horário. A briga pela ponta do pão. O jeito de dividir o jornal, ou a série, ou o último pedaço de pudim.
Um ritual é um gesto que se repete e que, de tanto se repetir, passa a significar alguma coisa além de si. O pastel trocado não é só pastel. É uma frase que diz: eu sei do que você gosta, e quero que você prove do que eu gosto. É uma conversa inteira resumida numa mordida.
Por que eles importam tanto
Eu acho que os rituais funcionam como corrimão. Ninguém sobe a escada inteira se segurando nele, mas é bom saber que ele está ali. Nos dias bons, a gente nem repara. Nos dias ruins, depois de uma briga feia, de uma semana de silêncio, o ritual vira o lugar onde dá para voltar sem precisar pedir licença.
Já escrevi sobre a solidão a dois, aquela sensação de estar sozinha dentro da relação. Quando releio aquele texto, percebo que uma das primeiras coisas que somem antes da solidão chegar são justamente os rituais. O café que um toma em pé, o outro sentado. A feira que vira tarefa de um só. O boa noite que vira silêncio. Ninguém repara no dia em que o ritual morre. Só sente falta depois.
Rituais que ninguém vê
Comecei a reparar nos casais à minha volta, na família, na vizinhança, na mesa do bar. Cada um tem os seus, e quase ninguém chama aquilo de ritual. Alguns me fazem rir, outros me deixam com o olho molhado.
- Uma amiga e o marido têm o costume de, todo domingo à noite, dizer em voz alta uma coisa boa e uma coisa ruim da semana. Começaram por causa dos filhos e nunca pararam, mesmo depois que os filhos saíram de casa.
- Na casa de uma prima, o companheiro deixa o chinelo dela virado para a porta do banheiro toda noite, porque ela detesta pisar no chão frio de madrugada.
- Os vizinhos do térreo, os dois com mais de setenta anos, dançam na sala quando toca uma certa música no rádio, só aquela, há quarenta anos. Dá para ver pela janela.
- E uma colega de trabalho, de trinta e poucos, diz que o ritual do casal é brigar por qual caminho pegar no trânsito. Ela jura que, no dia em que pararem de discutir isso, vai ficar preocupada.
Gosto dessa última. Nem todo ritual é doce. Alguns são pequenas implicâncias carinhosas, uma forma de dizer que a gente ainda presta atenção no outro, nem que seja para discordar.
Quando o ritual vira prisão
Mas eu não quero fazer uma crônica de propaganda de margarina. Ritual também pode endurecer. Pode virar obrigação, cobrança, cena feita para ninguém ver. O jantar de sexta que nenhum dos dois quer mais e que ninguém tem coragem de cancelar. O presente de aniversário comprado pelo hábito, sem vontade.
E tem os rituais que são desiguais. Aquele em que só um faz o café, só um lembra do aniversário da sogra, só um planeja a viagem. Isso não é ritual do casal, é ritual de uma pessoa só, com plateia. Escrevi sobre isso quando falei da carga mental no relacionamento: o cuidado que não é dividido pesa, mesmo quando vem embrulhado em tradição.
O ritual bom é aquele que os dois sustentam. Que pode mudar de forma sem perder o sentido. A feira de sábado pode virar o mercado de domingo. O pastel pode virar a tapioca. O que importa é que a troca continue acontecendo.
Inventar rituais novos
Uma pergunta que me fazem muito: dá para criar um ritual de propósito? Ou ele só nasce sozinho? Eu acho que dá, sim, mas com uma condição. Ele precisa ter graça para os dois. Ritual imposto vira tarefa. Ritual combinado com leveza pode pegar.
Algumas ideias, só para acender a vontade:
- Escolher um livro para ler em voz alta, um capítulo por noite, revezando quem lê.
- Fazer uma caminhada curta depois do jantar, sem celular, só os dois e a rua.
- Ter uma pergunta fixa para a sexta-feira: o que você aprendeu esta semana?
- Cozinhar juntos uma receita nova por mês, mesmo que dê errado. Sobretudo se der errado.
Nenhuma delas é mágica. O que transforma um gesto em ritual é o tempo. É a repetição paciente que vai, aos pouquinhos, enchendo o gesto de significado, como água que vai enchendo um copo devagar.
O que o ritual guarda
Acho que os rituais do casal são uma forma de escutar sem palavras. Eles dizem: eu presto atenção em você. Eu lembro. Eu volto. Num mundo em que tudo muda rápido demais, em que a gente troca de celular, de emprego, de cidade, eles são uma pequena âncora. Não impedem a tempestade, mas ajudam o barco a não sair rodando.
No sábado em que ele estava viajando, fui à feira sozinha. Pedi o pastel de queijo. E aí, sem pensar, pedi também o de carne. Comi metade de cada um, de pé, ao lado da barraca. O seu Toninho riu e perguntou: cadê o rapaz? Eu disse que estava fora. Ele respondeu: então hoje a senhora come pelos dois.
Não comi pelos dois. Comi por um, guardando o lugar do outro. Acho que é isso que o ritual faz. Ele guarda o lugar. Mesmo quando alguém está longe, mesmo quando a relação passa por uma fase seca, ele fica ali, esperando, feito o carrinho de feira encostado atrás da porta, com a roda esquerda rangendo, pronto para o próximo sábado.
Diana






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