Era uma terça-feira qualquer, dessas que não têm cara de nada. A novela tinha acabado, a louça estava no escorredor, e nós dois estávamos no sofá. Ele numa ponta, eu na outra, cada um com o seu celular aceso iluminando o rosto de baixo para cima, como lanterna de história de terror contada em acampamento. Entre a gente, no meio do sofá, uma almofada e um metro de nada.
Lembro que pensei: estou com saudade dele. E ele estava ali, a um braço de distância. Foi a primeira vez que entendi, no corpo, o que é a solidão a dois. Não é a solidão de quem mora sozinha e janta olhando a parede. É outra coisa, mais esquisita, porque tem testemunha.
O que é solidão a dois
Eu chamo de solidão a dois aquele momento em que a vida está toda dividida, a conta de luz, a cama, o almoço de domingo na casa da sogra, e mesmo assim falta alguém. Falta a pessoa que olhava para a gente. Falta a pergunta “e aí, como foi o seu dia?” feita com vontade de ouvir a resposta.
Ninguém some de uma vez. A distância vai chegando de mansinho, feito umidade na parede. Primeiro é uma conversa que fica para depois. Depois é a piada interna que perde a graça. Depois é o beijo de bom dia que vira um “tchau” gritado da porta. Quando a gente repara, a casa está cheia de móveis e vazia de encontro.
As pesquisas sobre solidão costumam medir quem mora só, quem não tem com quem contar. Escrevi sobre os números da solidão no Brasil e fiquei pensando em quantas daquelas pessoas que se dizem sozinhas dormem acompanhadas. Isso nenhum questionário pergunta direito.
A casa que fala baixo
Tem casal que briga muito, e isso cansa. Mas tem casal que não briga mais, e isso assusta mais ainda. Porque a briga, por pior que seja, ainda é uma forma de contato. A gente só briga com quem ainda espera alguma coisa. O silêncio da solidão a dois é diferente. É o silêncio de quem já parou de esperar.
Reparei que na minha casa a gente tinha desenvolvido uma língua só de logística. “Comprou o detergente?” “Paga o boleto amanhã.” “Vai ter que levar o carro na oficina.” Frases úteis, sem nenhum defeito. E nenhuma delas dizia eu estou aqui.
Tem uma imagem que não me sai da cabeça: dois vasos de planta na mesma janela, cada um recebendo o seu solzinho, cada um crescendo virado para o seu lado. Ninguém fez nada de errado. Só cresceram para longe.
Por que a solidão a dois acontece
Não tenho resposta científica, tenho observação de quem já esteve lá e de quem escuta muitas mulheres. Alguns caminhos parecem levar até esse sofá de duas pontas:
- A rotina engole a conversa. Trabalho, filhos, contas, cansaço. Sobra tempo para resolver, não sobra tempo para encontrar.
- A gente para de ser curiosa sobre o outro. Acha que já sabe tudo, e por isso deixa de perguntar.
- Uma mágoa antiga fica sem nome, e a gente vai se protegendo dela com pequenas distâncias.
- O celular vira uma terceira pessoa no sofá, mais divertida que nós dois.
- Um dos dois mudou, ou os dois mudaram, e ninguém avisou o outro.
Nenhum desses motivos é crime. São coisas da vida. Mas a vida, deixada no automático, tem esse jeito de ir separando quem ela juntou.
O que eu fiz naquela terça
Naquela noite eu não fiz nada heroico. Tirei a almofada do meio do sofá e coloquei no chão. Só isso. Ele olhou, achou estranho, perguntou o que foi. Eu disse que a almofada estava atrapalhando. Ele riu. E aí eu disse a frase que estava presa havia meses: eu estou com saudade de você.
Ele demorou para responder. Abaixou o celular, ficou olhando para a tela apagada da televisão, e depois disse que também. Que achava que era só ele. A gente passou a noite conversando sobre coisas que não tinham nada a ver com detergente.
Não vou mentir que tudo se resolveu ali. Não resolveu. Mas foi a primeira conversa em muito tempo em que a gente olhou um para o outro. Às vezes a ponte começa com uma almofada tirada do caminho.
Pequenos gestos contra a solidão a dois
Não acredito em fórmula, mas acredito em gesto. Alguns que me ajudaram, e que ouço de outras mulheres:
- Perguntar uma coisa nova. Não “como foi o dia”, mas “o que te fez rir hoje” ou “o que anda te preocupando”.
- Deixar o celular em outro cômodo por meia hora, de vez em quando, sem anunciar como se fosse uma regra.
- Mandar um áudio que não seja sobre logística. Eu escrevi sobre o amor nos tempos do áudio de três minutos e acho que um bom áudio ainda é carta de amor.
- Lembrar de uma coisa que vocês faziam no começo, e fazer de novo, mesmo que pareça bobo.
- Dizer em voz alta, sem acusar, que você está se sentindo sozinha. Se for difícil, este texto sobre como ter uma conversa difícil pode ajudar a começar.
Quando a almofada não basta
Tem vezes que a gente tira a almofada e do outro lado não tem ninguém querendo chegar perto. Isso também é uma resposta, e ela dói. A solidão a dois pode ser uma fase de uma relação que ainda tem vida. Pode também ser o sinal de que a relação acabou e só falta alguém dizer. Ninguém de fora pode decidir isso por você.
Se essa solidão estiver pesando demais, se os dias estiverem ficando escuros por dentro, procure alguém para conversar. Uma amiga, uma terapeuta, alguém da família. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, de graça. Este texto é uma crônica, uma conversa entre nós, e não substitui o cuidado de uma profissional.
Um metro de nada
Hoje, quando sento no sofá, reparo onde está a almofada. Virou uma espécie de termômetro particular. Tem noite em que ela está no meio, e tudo bem, cada um precisa do seu cantinho. Tem noite em que eu tiro do caminho sem dizer nada, e ele chega mais perto sem dizer nada também.
A solidão a dois não se cura de uma vez. Ela é como poeira: volta sempre, e a gente precisa ir tirando. Mas eu aprendi que um metro de nada pode ser atravessado. Basta que alguém, numa terça-feira qualquer, decida que quer atravessar.
Para continuar a reflexão:
O fim de um sentimento raramente faz barulho; ele costuma acontecer nos silêncios não ditos do dia a dia. Para quem se viu nas entrelinhas deste texto e busca uma leitura sensível sobre distanciamento, desgaste e os lutos que vivemos a dois, vale conhecer o livro:
📖 Onde Morre o Amor — Douglas Rodrigues (disponível no Mercado Livre)
Diana






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