Situationship: o que é e por que ninguém tem coragem de perguntar

Situationship é a relação sem rótulo, com intimidade e sem compromisso. Diana explica o que é, por que virou tão comum e como saber se te faz bem.

Por Diana

·

Ilustração da Diana desfolhando uma margarida, com a sobrancelha erguida.

Vocês se falam todo dia. Bom dia com foto do café, boa noite com áudio sonolento. Saem juntos, dormem juntos, já sabem o pedido um do outro na pizzaria, sem cebola para você, borda recheada para ele. Ele conhece a sua playlist, você conhece a mãe dele de nome, ainda que não de pessoa.

Mas se alguém pergunta “vocês estão namorando?”, vem a risadinha nervosa. Os olhos fogem para o lado. “Ah, é complicado.”

Bem-vinda à situationship.

Esse é um dos temas que mais aparecem nas cartas que eu leio. Quase nunca com esse nome, que é estrangeiro e meio esquisito. Quase sempre com essa dúvida, que é antiga e muito brasileira: afinal, o que a gente é?

O que é situationship

A palavra vem do inglês e junta situation, situação, com relationship, relacionamento. Uma situação que parece relacionamento. Ou um relacionamento que não quer sair da situação.

Em português a gente já teve vários nomes para isso. Rolo. Caso. Ficante sério. “A gente está se conhecendo”, dito no terceiro ano de se conhecer. Os nomes mudam, a sensação é a mesma.

É aquela relação que tem intimidade, constância e carinho, mas nenhum rótulo. Não é amizade, porque tem beijo. Não é namoro, porque ninguém disse. E ninguém tem coragem de perguntar o que é.

Por que virou tão comum

Alguns motivos ajudam a entender, e nenhum deles faz de ninguém vilão:

  • Medo de compromisso, muitas vezes depois de términos difíceis que deixaram marca.
  • Excesso de opção. Os aplicativos vendem a sensação de que sempre pode aparecer alguém mais bonito, mais engraçado, mais compatível, logo ali, no próximo deslize do dedo.
  • Cansaço. Para muita gente, a relação sem nome parece pedir menos. Menos cobrança, menos expectativa, menos almoço de família.
  • Medo de perguntar. Porque perguntar pode trazer uma resposta que você não quer ouvir.

Esse último é o coração da coisa. A situationship se sustenta, em boa parte, porque alguém tem medo de acabar com ela. E prefere a dúvida ao risco de uma certeza triste.

Quando funciona e quando não funciona

Não tem nada de errado numa relação sem rótulo. De verdade. Desde que as duas pessoas queiram a mesma coisa, ou a mesma ausência de coisa. Se as duas estão leves com o formato, ótimo. A vida adulta também tem espaço para o que não tem nome.

O problema aparece quando uma espera mais e a outra não. Aí a situationship vira sala de espera de consultório, com revista velha e relógio que não anda. Ansiedade. Cada mensagem lida como pista de investigação. Cada demora vira teoria.

Alguns sinais de que talvez não esteja te fazendo bem:

  • você passa muito tempo tentando adivinhar o que o outro sente, como quem tenta ler a borra do café;
  • evita dizer o que quer para não “assustar”, e vai encolhendo o próprio desejo para caber no dele;
  • fica mal ao ver a pessoa com outras, mas sente que não tem direito de dizer nada;
  • está esperando que um dia, magicamente, “vire” alguma coisa;
  • as amigas já pararam de perguntar, porque você sempre responde a mesma coisa.

A pergunta que dá medo

Em algum momento talvez seja preciso perguntar: “o que a gente é?”

Eu sei. A frase parece pesada, parece cobrança, parece tudo o que as revistas mandaram não fazer. Mas pense diferente. Não é cobrança. É mapa. É uma forma de saber onde você está pisando, para decidir se continua andando por ali.

Deixei umas ideias em como ter uma conversa difícil sem virar briga. E se a resposta não for a que você queria, Despedir é verbo pode ajudar.

Quando acaba em silêncio

Muitas dessas relações terminam do mesmo jeito que começaram. Sem nome e sem conversa. Alguém simplesmente some. As mensagens vão ficando mais curtas, os intervalos mais longos, até que um dia não vem mais nada. E você fica sem nem saber se tem direito de sofrer, porque oficialmente nem era nada.

Era, sim. Se doeu, era.

Se aconteceu com você, eu escrevi uma carta para quem ainda espera uma resposta que não vem.

O que a gente merece

O problema nunca foi a falta de rótulo. É a falta de clareza. Rótulo é só uma etiqueta. Clareza é respeito.

Você tem o direito de saber o que está vivendo. E tem o direito de querer mais, mesmo que o outro não queira. Querer mais não é carência. É só saber o próprio tamanho.

Diana


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

Quem escreve

Diana

Escrevo sobre o que a gente sente e não fala no almoço de domingo. Se algum texto te cutucou, me conta. Não prometo resposta pronta, só boa companhia.

Quem é a Diana  ·  Escreva para ela

Tem uma história que não sai da cabeça?

Pode me escrever. Eu leio tudo, com calma e sem julgamento.

Comentários

Uma resposta para “Situationship: o que é e por que ninguém tem coragem de perguntar”

  1. […] Muitas vezes o ghosting acontece onde nada foi dito desde o começo. Aquele lugar entre amizade e namoro, onde ninguém pergunta o que é. Escrevi sobre isso em situationship: quando ninguém tem coragem de perguntar. […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Ilustração em nanquim da Diana

Aqui a Diana conjuga os verbos do afeto: cartas, crônicas e conversas sobre o jeito como a gente se relaciona.

Categorias

Arquivo

Buscar

Continue lendo