Grupos intencionais: metade dos brasileiros já participa de microcomunidades

Pesquisa Queridos Estranhos, da Koga/Dojo, mostra que 50% dos brasileiros participam de grupos intencionais. Diana conta o que isso diz sobre pertencer.

Por Diana

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Ilustração de mulheres de pele clara e roupas pretas sentadas em roda, tomando café juntas.

Grupo de corrida que se encontra no parque às seis da manhã. Clube do livro que discute mais a vida do que o livro. Roda de bordado no salão da paróquia. Turma da cerâmica que já virou família. Mães que se conheceram num aplicativo e hoje dividem o almoço de quinta enquanto as crianças destroem a sala.

Se você participa de algum desses, faz parte de um movimento que eu acho bonito de ver crescer no Brasil: o dos grupos intencionais, também chamados de microcomunidades. Gente que não se conhecia e resolveu, por algum motivo, se encontrar de novo e de novo.

A pesquisa

O estudo “Queridos estranhos”, feito pela Koga, unidade de estudos comportamentais da Dojo, ouviu mais de 1.500 brasileiros para entender como funcionam esses grupos formados por pessoas que, no começo, eram desconhecidas umas das outras.

O nome da pesquisa já é um pequeno poema. Queridos estranhos. Duas palavras que pareciam não caber juntas e, no entanto, descrevem tão bem aquela sensação de chegar num lugar sem conhecer ninguém e, meses depois, sentir saudade de gente cujo sobrenome você nem sabe.

Os números

  • Um em cada quatro brasileiros diz se sentir sozinho na maior parte do tempo.
  • 50% já participam de algum grupo intencional.
  • 74% de quem participa diz que essas relações são tão ou mais importantes para o bem-estar quanto as amizades de longa data.
  • 70% de quem ainda não participa gostaria de participar, mas não sabe onde procurar ou ainda não encontrou um grupo com a sua cara.

Esse último número é, para mim, o mais bonito e o mais triste ao mesmo tempo. Sete em cada dez pessoas querendo pertencer a alguma coisa e sem saber por onde começar.

Por que esses grupos funcionam

Porque resolvem o maior obstáculo da amizade adulta: a falta de convivência regular.

Amizade precisa de repetição para nascer. Precisa de terça-feira, de quinta, de sábado de manhã. Precisa de ver a mesma cara várias vezes até que a cara vire nome, e o nome vire história. Esses grupos entregam exatamente isso. Toda semana, as mesmas pessoas, em volta de um interesse comum que serve de desculpa para o encontro.

E tem uma coisa libertadora em começar entre estranhos. Ninguém conhece a sua família, o seu ex, a sua versão de dez anos atrás. Ninguém sabe que você chorava na escola, que foi demitida, que se separou. Você chega como é agora. Só isso. E pode ser só isso, pelo tempo que quiser.

O interesse é a desculpa, a conversa é o motivo

Quem participa de clube do livro sabe: a discussão sobre o romance dura vinte minutos. O resto da noite é sobre a mãe de uma, o emprego de outra, o filho adolescente de uma terceira. O livro era a porta. A sala é a vida.

Com o bordado, a corrida, a horta, o coral, acontece o mesmo. O interesse comum tira o peso do encontro. Ninguém precisa inventar assunto, ninguém precisa ser interessante. Basta estar ali, fazendo a mesma coisa que as outras, e deixar a conversa nascer sozinha, como planta em vaso que a gente esquece de regar e mesmo assim floresce.

Um antídoto possível para a solidão

O dado aparece num momento em que a solidão ocupa cada vez mais espaço nas pesquisas. Outro levantamento recente mostrou que quatro em cada dez adultos brasileiros se sentem sozinhos.

Grupos intencionais não resolvem isso sozinhos. Não substituem políticas públicas, praças, transporte, tempo livre. Mas são uma porta concreta. E portas concretas fazem muita falta numa vida que vive nos dizendo para nos virarmos sozinhas.

Como encontrar o seu grupo

Se você está nos 70% que gostariam de participar, algumas ideias:

  • Comece pelo que você já gosta, ou pelo que sempre quis aprender e foi adiando. Aquele curso de pintura, aquele grupo de caminhada, aquele coral.
  • Prefira grupos com encontros regulares e presenciais. O online ajuda, mas o abraço ainda não foi digitalizado.
  • Procure perto de casa. Bibliotecas públicas, centros culturais, igrejas, associações de bairro, parques. Muitos têm atividades gratuitas.
  • Dê tempo. A sensação de pertencer costuma chegar depois do terceiro, quarto encontro. No primeiro, todo mundo se sente meio deslocada.
  • Se não encontrar, crie. Às vezes basta um convite no grupo do prédio: “alguém topa caminhar no sábado de manhã?”. Você vai se surpreender com quantas respostas chegam.

Tem mais ideias em como fazer amigos depois dos 30.

Queridos estranhos

Gosto de pensar que todas as pessoas importantes da nossa vida já foram, um dia, estranhas. A melhor amiga, o grande amor, a comadre, a vizinha que virou família. Todas começaram como alguém que a gente não conhecia, sentada do outro lado da mesa.

Talvez seja isso que esses grupos nos lembram. Que o estranho é só um querido que ainda não aconteceu.

Diana

Fonte


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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