Quase um em cada cinco estudantes brasileiros conversa com uma inteligência artificial quando se sente sozinho.
Eu li essa frase duas vezes. Depois fiquei um tempo olhando para a tela, com a xícara de café esfriando na mão, pensando na menina que eu fui aos 14 anos. Ela também se sentia sozinha, muito. Escrevia num diário com cadeado, desses que qualquer grampo abria. O diário não respondia. Talvez fosse melhor assim. Talvez não.
O dado vem de uma pesquisa da Arco Educação, divulgada em junho de 2026, e diz muito sobre a solidão na adolescência. Talvez diga ainda mais sobre nós, os adultos que estamos em volta dessas meninas e desses meninos.
Quem foi ouvido
A pesquisa ouviu 936 alunos de escolas privadas de todo o Brasil, do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. É um recorte específico, de escolas particulares, e vale lembrar disso ao ler os números. Mas o que eles mostram já é suficiente para acender uma luz amarela.
O que os números mostram
- 52% dos estudantes relatam ter alguma ou muita dificuldade para fazer novos amigos.
- 17% afirmam sentir solidão com frequência.
- 28,7% dizem que “sempre” têm dificuldade de renovar o círculo de amizades. As normas internacionais ficam entre 20% e 25%.
- No cruzamento com a escala de solidão da UCLA, usada no mundo inteiro, os estudantes brasileiros ficaram no limite de cima da faixa considerada moderada.
Metade dos adolescentes com dificuldade de fazer amigos. Metade. Na idade em que amizade é praticamente oxigênio.
As meninas, de novo, na frente
O recorte por gênero é o que mais me inquieta. As meninas recorrem mais à IA quando se sentem sozinhas: 23,8%, contra 12,3% dos meninos. Quase o dobro.
Esse dado conversa, de um jeito triste, com o que as pesquisas com adultos também mostram. No levantamento sobre solidão no Brasil, as mulheres adultas aparecem com índices maiores de solidão do que os homens.
Começa cedo, então. E não termina sozinho. A menina que hoje desabafa com um aplicativo às onze da noite pode ser a mulher que, daqui a vinte anos, vai me escrever uma carta pedindo desculpas pelo desabafo.
O Ensino Médio como ponto crítico
A transição entre ciclos agrava o quadro. A solidão frequente vai de 16% nos anos finais do Ensino Fundamental para 25,7% no Ensino Médio.
Faz sentido. É a fase em que tudo muda ao mesmo tempo: o corpo, a turma, a pressão do vestibular, o primeiro amor e o primeiro coração partido, a sensação de que todo mundo está vivendo alguma coisa incrível nas redes enquanto você está no quarto.
A pesquisa também aponta que escolas sem programas de desenvolvimento socioemocional têm os maiores índices de isolamento e o uso mais alto de IA como refúgio. Ou seja: escola que ensina a conviver faz diferença.
O que eu acho que isso diz
É fácil culpar a tecnologia. Seria até confortável. Eu não vou por esse caminho.
Para mim, a IA aqui é sintoma, não causa. Quando um adolescente conversa com uma máquina porque não encontra com quem conversar, a pergunta mais importante não é sobre o aplicativo. É sobre o que está faltando em volta dele. Tempo. Escuta. Lugares de convivência que não custem caro. Adultos disponíveis, que não estejam também afogados nas próprias telas.
A máquina tem uma vantagem cruel: ela sempre responde, nunca está cansada, nunca diz “agora não, filha”. Para competir com isso, a gente não precisa ser perfeita. Precisa estar presente de vez em quando, de verdade.
Para mães, tias, madrinhas e professoras
Algumas atitudes simples fazem diferença:
- Pergunte sobre amizades com curiosidade, não como interrogatório. “Quem é a pessoa mais engraçada da sua turma?” abre mais portas do que “com quem você anda?”.
- Abra espaço para conversa sem julgamento, do jeito que eu descrevo em Escutar é verbo. Às vezes a melhor conversa acontece no carro, sem contato visual, voltando da escola.
- Incentive atividades em grupo com convivência regular, como esporte, teatro, música, coral, grupo de jovens. A amizade adolescente também nasce da repetição.
- Conte das suas próprias solidões. Adolescente desconfia de adulto perfeito. Saber que a mãe também se sentiu deslocada aos 15 aproxima.
- Observe sinais de isolamento e procure apoio profissional quando for o caso: mudança brusca de humor, abandono de atividades que gostava, sono desregulado.
Uma lembrança para terminar
Lembra de quem foi a sua melhor amiga na adolescência? Lembra do cheiro da casa dela, da risada, do segredo que só vocês duas sabiam?
Desejo que toda menina tenha uma pessoa assim. De carne e osso, de risada alta, de abraço apertado na porta da escola. O resto, a gente aprende a usar com moderação.
Diana






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