Perdoar é verbo: como perdoar alguém sem se apagar

Perdoar não é esquecer, não é voltar e não tem prazo. Diana fala sobre como perdoar alguém sem se apagar no processo, no seu tempo.

Por Diana

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Ilustração de duas mãos desfazendo com cuidado um nó num fio.

“Você tem que perdoar.”

Repare como essa frase quase sempre vem de quem não estava lá. Da tia no almoço, da amiga que nunca passou pelo que você passou, do padre da novela. E repare também como ela vem apressada, com cheiro de assunto encerrado. Perdoa, pronto, vira a página, vamos falar de outra coisa.

Eu desconfio de perdão com prazo de validade. Desconfio de perdão por educação, desses que a gente dá como quem devolve um prato emprestado. E desconfio, principalmente, do perdão que serve para deixar todo mundo confortável, menos quem foi ferida.

Saber como perdoar alguém de verdade não tem nada a ver com decreto. Perdoar é verbo. Tem tempo, tem ritmo, tem conjugação própria. E, como todo verbo que importa, se conjuga devagar.

O que o perdão não é

Antes de falar do que ele pode ser, deixa eu tirar algumas pedras do caminho:

  • Perdoar não é esquecer. A memória fica. O que muda é o peso. É como uma cicatriz: ela continua lá, mas um dia você percebe que parou de doer quando chove.
  • Perdoar não é dizer que estava tudo bem. Não estava. Alguma coisa errada aconteceu, e reconhecer isso faz parte do caminho.
  • Perdoar não é voltar. Dá para perdoar alguém e, mesmo assim, decidir que essa pessoa não cabe mais na sua vida. As duas coisas convivem.
  • Perdoar não é favor para o outro. Na maior parte das vezes, é um movimento que você faz por você, para desocupar um quarto da casa que estava cheio de caixa velha.
  • Perdoar não tem hora marcada. Quem tem pressa para que você perdoe costuma ser quem quer se livrar do próprio desconforto.

O que o perdão pode ser

Pode ser parar de esperar que o passado mude. Ele não vai mudar. O passado é a única coisa que fica quieta no lugar onde a gente deixou.

Pode ser parar de ensaiar, no chuveiro, aquela conversa que nunca vai acontecer. Você sabe qual. A versão em que você diz tudo, com a voz firme, e a outra pessoa finalmente entende.

Pode ser devolver ao outro a responsabilidade pelo que ele fez, em vez de carregar aquilo como se fosse seu. Porque a culpa tem esse defeito curioso: ela costuma morar na casa errada.

Eu gosto de pensar num cabo de guerra. Perdoar é soltar a corda. O outro lado pode continuar puxando, pode até cair sentado, pode reclamar que você parou de jogar. Você só não precisa mais segurar. E, quando solta, descobre que as mãos estavam em carne viva fazia tempo.

A raiva, essa visita mal falada

Tem uma etapa que muitas mulheres pulam, e eu entendo por quê. É a raiva.

A gente foi ensinada que raiva é feia. Que menina boazinha não grita, não bate porta, não deseja mal a ninguém. Então pulamos direto da dor para a compreensão. “Ele estava passando por um momento difícil.” “Ela teve uma infância complicada.” “Ele não fez por mal.”

Pode até ser. Mas raiva engolida não some. Ela muda de endereço. Vai morar no estômago, no maxilar travado, na enxaqueca de domingo, na impaciência com quem não tem nada a ver com a história. A raiva precisa ser sentida para poder ir embora, do mesmo jeito que a febre precisa subir para o corpo se curar.

Sentir raiva não te faz menos capaz de perdoar. Às vezes é o único caminho até lá.

Como perdoar sem se apagar

Não tenho receita. Tenho alguns passos que eu vejo funcionando nas histórias que chegam até mim, e que eu mesma vou tentando, com tropeços:

  1. Dê nome inteiro à mágoa. “Fiquei triste” é diferente de “me senti humilhada na frente da minha família”. A precisão ajuda o coração a entender onde dói.
  2. Deixe a raiva existir. Escreva uma carta que você nunca vai mandar. Grite no carro. Chore no banho. Não é exagero. É digestão.
  3. Separe a pessoa do ato. Você pode entender o contexto de alguém sem justificar o que ele fez. Compreender não é absolver.
  4. Decida o que fazer com a relação. Perdoar e manter. Perdoar e afastar. Perdoar e renegociar as regras. Nada precisa ser decidido no mesmo dia, nem no mesmo ano.
  5. Observe se o perdão te liberta ou te cala. Se perdoar significa aceitar tudo de novo, calada, talvez não seja perdão. Talvez seja medo usando roupa de virtude.

E quando quem precisa de perdão é você

Às vezes o perdão mais difícil é o que a gente deve a si mesma.

Pelo tempo que ficou num lugar que machucava. Pelas coisas que disse no calor da hora. Pelas vezes em que viu os sinais e preferiu não ver. Pela mulher que você foi, e que fez o melhor que podia com o que sabia naquela época.

Eu escrevi uma carta para a mulher que eu era aos 20 justamente para isso. Talvez te ajude a escrever a sua. É estranho e bonito tratar a si mesma com a mesma delicadeza que a gente trata uma amiga.

O perdão não é linha de chegada

Ele vai e volta, feito maré. Tem dia em que você jura que superou. No dia seguinte, uma música tocando no mercado, um perfume no elevador, um nome na tela do celular, e tudo volta como se tivesse sido ontem.

Isso não é fracasso. É processo. Ninguém perdoa uma vez só. A gente perdoa muitas vezes, cada vez um pouquinho mais, até que um dia percebe que pensou na pessoa e o coração não acelerou. Só lembrou. Como quem lembra de uma rua onde morou.

Para quem ainda não consegue

Se você está lendo isso e ainda não consegue perdoar, está tudo bem. Não existe atraso. Existe o seu tempo.

E se a relação acabou de vez, eu falo sobre isso em Despedir é verbo, sobre essa arte esquecida de encerrar o que precisa ser encerrado sem sair aos pedaços.

Perdoar é verbo. Se conjuga no presente, um dia de cada vez, com a paciência de quem rega uma planta que ainda não deu flor.

Diana


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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Escrevo sobre o que a gente sente e não fala no almoço de domingo. Se algum texto te cutucou, me conta. Não prometo resposta pronta, só boa companhia.

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Comentários

3 respostas a “Perdoar é verbo: como perdoar alguém sem se apagar”

  1. […] Pras conversas, deixei umas ideias para ter uma conversa difícil. Se a mágoa ainda pesa, talvez Perdoar é verbo faça sentido […]

  2. […] se ficou mágoa, Perdoar é verbo pode ajudar a organizar o que […]

  3. […] que é como as coisas mais verdadeiras costumam acontecer. Se a mágoa com você mesma ainda pesar, Perdoar é verbo pode te fazer […]

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Ilustração em nanquim da Diana

Aqui a Diana conjuga os verbos do afeto: cartas, crônicas e conversas sobre o jeito como a gente se relaciona.

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