Carta para minha irmã: sobre a relação entre irmãs e o que a infância deixou

Uma carta da Diana para a irmã caçula sobre a relação entre irmãs: as brigas da infância, os ciúmes guardados e o amor que ficou.

Por Diana

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Ilustração da Diana sentada no degrau da porta de casa, trançando o cabelo da irmã mais nova, com um envelope fechado ao lado e um círculo vermelho ao fundo.

Lu,

Faz tempo que eu quero te escrever uma carta de verdade, dessas com começo, meio e fim, e não mais um áudio de quatro minutos que você escuta em velocidade dobrada enquanto lava a louça. Eu sei que você faz isso. Eu também faço com os seus.

Escrevo porque ontem, arrumando o armário da mãe, achei aquela foto da gente na praia, eu com uns nove anos, você com cinco, as duas de maiô igual porque a mãe achava bonito vestir a gente de dupla. Você está chorando na foto. Eu estou com cara de quem acabou de fazer alguma coisa. Não lembro o que foi, mas tenho certeza de que fui eu.

Fiquei sentada no chão do quarto um tempão com a foto na mão, pensando na relação entre irmãs, na nossa, e em como é estranho amar tanto uma pessoa com quem a gente brigou tanto.

O que a gente não disse na infância

Eu nunca te contei, mas quando você nasceu eu fiquei com raiva. Não de você, que era um embrulhinho vermelho que só dormia, mas do espaço que você ocupou. De repente a casa tinha um centro novo, e não era eu. A vó vinha no domingo e ia direto para o berço. Eu ficava na porta da cozinha, esperando alguém perguntar da escola.

Criança não tem palavra para isso, então eu tinha outras ferramentas. Escondia a sua chupeta. Dizia que o bicho-papão morava no seu armário. Mudava as regras do jogo no meio para você perder. Hoje eu vejo que aquilo tudo era um jeito torto de dizer: olha para mim também.

Você, por sua vez, aprendeu rápido que chorar alto resolvia. E eu passei a infância achando que você era a preferida e você, eu descobri só há pouco tempo, passou a infância achando que a preferida era eu. A mãe, coitada, devia estar só tentando sobreviver às duas.

O ciúme na relação entre irmãs

Tem uma coisa na relação entre irmãs que ninguém explica direito: a gente se compara a vida inteira. As notas, o corpo, o namorado, o emprego, quem casou primeiro, quem teve filho, quem liga mais para a mãe. A régua é sempre a outra. E isso dói dos dois lados, porque cada uma enxerga só o que a outra tem e nunca o que a outra carrega.

Quando você passou no concurso, eu fiquei feliz e com uma pontinha de inveja, as duas coisas ao mesmo tempo, no mesmo peito. Quando eu me separei, você me disse uma frase que me magoou por meses e que hoje eu entendo que era medo. A gente se ama com tanta proximidade que às vezes a lente embaça.

Escrevo isso não para pedir desculpa de tudo de uma vez, porque desculpa de atacado não vale muito. Escrevi um texto inteiro sobre como pedir desculpas de verdade e aprendi que ela precisa ter nome e endereço. Então aqui vai uma com nome: desculpa por ter rido do seu cabelo no seu aniversário de quinze anos. Você chorou no banheiro e eu fingi que não sabia.

O que eu aprendi com você

Tem coisas que só você sabe de mim. O cheiro do nosso quarto. O jeito como o pai assobiava quando estava nervoso. A música que a gente cantava no banco de trás do Chevette, voltando da casa da tia, quando a estrada ficava escura. Ninguém mais no mundo tem essas lembranças. Quando a mãe e o pai se forem, e eu escrevo isso com a mão um pouco tremendo, você vai ser a última testemunha da minha infância. E eu, da sua.

Isso me assusta e me consola. Porque, por mais que a gente se desentenda, existe um fio entre nós que não depende de concordar. Você me ensinou que dá para discordar de alguém sobre política, sobre criação de filho, sobre o tempero do feijão, e continuar sendo dela.

Também aprendi com você a pedir ajuda. Você pede com uma naturalidade que eu invejo. Liga e diz: preciso de você. Eu fico rodeando, inventando desculpa, esperando que adivinhem. Estou tentando aprender.

Sobre a mãe, e sobre nós duas

Quando escrevi a carta para a nossa mãe, você me mandou uma mensagem dizendo que tinha chorado no ônibus. Fiquei pensando que a gente olha para ela de lugares diferentes. Você foi a filha que ficou perto. Eu fui a que saiu cedo. Cada uma tem uma mãe um pouco diferente, e isso não é mentira de nenhuma das duas.

Às vezes eu sinto que deixei você sozinha com coisas que eram das duas. As consultas, as contas, as noites em que ela ligava preocupada com nada. Eu ajudava de longe, mandava Pix, ligava no domingo, e achava que era suficiente. Não era. Quero mudar isso, e quero que a gente converse sobre como dividir o cuidado sem que uma de nós vire a irmã que tudo resolve e a outra, a irmã que aparece no Natal.

O que eu quero para a gente daqui pra frente

Não quero uma relação de comercial de margarina, porque isso não existe e a gente ia se entediar. Quero coisas mais simples:

  • Um café por mês, só nós duas, sem marido, sem filho, sem mãe.
  • Poder dizer “isso me magoou” sem que vire tribunal.
  • Rir das mesmas coisas idiotas de sempre, inclusive daquela foto da praia.
  • Te contar as coisas antes de contar para o resto do mundo.

E quero, principalmente, que você saiba que eu te vejo. Não a caçula, não a que chorava alto, não a que passou no concurso. Você, a mulher que você virou, com as escolhas que eu não faria e que são suas, e que eu admiro mais do que sei dizer em voz alta.

Irmã é um lugar

Eu fiquei muito tempo achando que irmã era só um parentesco. Hoje acho que irmã é um lugar. Um lugar meio bagunçado, com coisa guardada no fundo da gaveta, mas um lugar onde a gente sempre pode voltar sem precisar explicar o caminho.

Algumas amizades acabam sem aviso, e eu já escrevi sobre a amiga que sumiu. Com você eu não tenho esse medo. Não porque a gente seja perfeita, mas porque a gente já brigou de todos os jeitos possíveis e continuou voltando para a mesma mesa no almoço de domingo. Isso, para mim, é a forma mais teimosa de amor que eu conheço.

Vou mandar a foto da praia pelo correio, junto com esta carta. Pode ficar com ela. Agora é a sua vez de guardar as provas de que eu fui uma irmã mais velha insuportável e que, apesar de tudo, sempre esteve do seu lado.

Te amo do tamanho daquele maiô ridículo.

Sua irmã,

Diana


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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Escrevo sobre o que a gente sente e não fala no almoço de domingo. Se algum texto te cutucou, me conta. Não prometo resposta pronta, só boa companhia.

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