“Se ame primeiro.” “Você é suficiente.” “Ninguém vai te amar se você não se amar.”
Estão em todo lugar. Na camiseta da loja de departamento, na caneca do escritório, no quadrinho da parede do banheiro, na legenda da foto de biquíni em Porto de Galinhas. Amor-próprio virou slogan. E slogan, eu sei, tem um defeito de fábrica: é bonito e vazio na mesma medida, como embalagem de presente sem presente dentro.
Então eu quero fazer uma pergunta mais incômoda, dessas que a gente faz para si mesma na fila do caixa, quando o celular descarrega e não tem para onde fugir. O que é amor-próprio quando ninguém está postando sobre ele?
Não é se achar incrível
Existe uma confusão comum entre amor-próprio e autoestima alta o tempo inteiro. Como se se amar fosse acordar todo dia se achando linda, competente, maravilhosa, pronta para conquistar o mundo antes do café.
Não é. Ninguém acorda assim todo dia, e quem diz que acorda está vendendo alguma coisa.
Amor-próprio de verdade convive com dia ruim. Com espelho difícil. Com insegurança na reunião, com vergonha da roupa, com aquela foto em que você saiu com papo. Ele não é um sentimento constante, desses que a gente liga e deixa ligado como ventilador. É um jeito de se tratar. Mesmo quando o sentimento não ajuda. Principalmente quando o sentimento não ajuda.
Também não é se bastar
Outra armadilha, essa mais sutil: achar que se amar é não precisar de ninguém. Que a mulher com amor-próprio é aquela que resolve tudo sozinha, que não pede nada, que não chora na frente dos outros, que troca o pneu na chuva sem ligar para ninguém.
Isso não é amor-próprio. É exaustão com boa assessoria de imprensa.
Precisar dos outros é humano. Pedir ajuda é saudável. A gente é bicho de bando, de roda, de mesa comprida. Amor-próprio inclui saber que você merece ser cuidada, e aceitar o cuidado quando ele vem, sem ficar devendo.
Não é egoísmo, também
Muitas de nós crescemos ouvindo que pensar em si é feio. Que mulher boa pensa primeiro nos outros. Que quem se cuida demais é vaidosa, metida, egoísta.
Mas pense num avião. A instrução é clara: coloque primeiro a sua máscara de oxigênio, depois ajude quem está do lado. Não é egoísmo. É física. Quem desmaia não ajuda ninguém.
O que ele é, na prática
Nas histórias que eu leio, o amor-próprio raramente aparece como grande declaração. Aparece em gestos pequenos, quase invisíveis, que só quem faz percebe:
- Dizer não quando é não. Mesmo com culpa, mesmo com o coração acelerado. Falei disso em como colocar limites sem culpa.
- Sair de onde machuca. Uma relação, um emprego, um grupo de amigas que só critica. Nem sempre de uma vez. Mas sem fingir que está tudo bem.
- Falar consigo como falaria com uma amiga. Se você não diria a ela “você é burra” depois de um erro bobo, talvez não devesse dizer a si mesma. Repara no tom da sua voz interna. Às vezes ela é a pessoa mais cruel que você conhece.
- Cuidar do corpo sem castigar. Comer comida de verdade, dormir, se mexer de um jeito que dê prazer. Como cuidado, não como penitência pelo que comeu no fim de semana.
- Reconhecer o que você faz bem. Receber um elogio dizendo “obrigada” e ponto. Sem “ah, não foi nada”, sem “imagina, qualquer um faria”.
- Se perdoar. Pelos erros, pelas demoras, pelas escolhas que hoje seriam outras. A carta para a mulher que eu era aos 20 é um bom exercício.
- Ter tempo que não serve para nada. Uma tarde lendo, um banho demorado, uma janela olhada. Tempo inútil é dos mais nutritivos.
Amor-próprio e relações
Amor-próprio não é o contrário de amar o outro. É o que permite amar sem se perder.
Quem tem uma base minimamente firme consegue estar numa relação sem sumir dentro dela, como açúcar que se dissolve no café. Consegue dizer o que quer, discordar, ir embora se precisar. Quando essa base falta, o risco é cair em padrões de dependência emocional, em que o outro vira o único espelho.
E vale lembrar: uma pesquisa que acompanhou mais de 12 mil pessoas durante anos mostrou que estar num relacionamento não garante felicidade. A qualidade da relação importa. Inclusive a da relação com você, que é a única que dura a vida inteira.
Um exercício para hoje
Antes de dormir, pense em três coisas que você fez bem hoje. Não precisam ser grandes. Pode ser ter tomado água, ter respondido aquela mensagem difícil, ter saído da cama num dia pesado. Diga em voz baixa, para ninguém ouvir. Parece bobo. Faça mesmo assim.
Para levar
Amor-próprio não é frase que você lê na caneca e de repente sente. Não é estado de espírito, nem conquista definitiva, nem medalha que se pendura na parede.
É algo que você pratica. Falha. Retoma. Pratica de novo. Como todo verbo que vale a pena.
Diana






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