Esperar é verbo: a diferença entre paciência e ficar parada

Tem espera que é cuidado e tem espera que é a gente desistindo devagar de si mesma. Um texto sobre paciência, tempo e a hora de levantar do banco.

Por Diana

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Ilustração da Diana sentada num banco, com as mãos no colo e uma ampulheta ao lado.

Tem uma cadeira na casa da minha avó que ficava de frente para o portão. Ninguém sentava nela sem motivo. Quem sentava ali estava esperando: o filho que vinha no domingo, a carta que demorava, a chuva que não chegava. Eu achava, criança, que esperar era isso, ficar sentada olhando para o lado de fora. Demorei anos para entender que esperar também é verbo. E verbo, a gente sabe, é coisa que se faz.

A gente aprendeu que esperar é a parte passiva da vida. Que quem espera não faz nada, só aguenta. Mas tem uma espera que trabalha por dentro, que arruma a casa enquanto o portão continua fechado. E tem outra, mais silenciosa, que vai tirando a gente de dentro da própria vida sem fazer barulho. As duas têm a mesma cara de fora. Por dentro, são opostas.

Esperar no relacionamento: quando é paciência

Paciência é esperar com os olhos abertos. É dar tempo para o outro entender o que você disse, para a ferida fechar, para uma conversa amadurecer. Quem tem paciência sabe o que está esperando e por quê. E, principalmente, continua vivendo enquanto espera.

Paciência aparece quando a gente respeita o ritmo de alguém sem abandonar o nosso. O namorado que precisa de uns dias para responder uma conversa difícil. A amiga que está atravessando um luto e some um pouco. A mãe que demora a aceitar uma escolha nossa. Nesses casos, esperar é um gesto de amor: eu sei que você vem, e enquanto você não vem, eu cuido de mim.

Esperar com paciência é deixar a porta encostada, não trancada, e ir fazer um café.

Quando esperar vira ficar parada

A outra espera é aquela em que a gente para de viver para não perder o momento em que o outro decidir aparecer. É deixar de marcar planos porque ele pode ligar. É adiar a própria vida até o outro resolver a dele. É esperar uma mudança que nunca foi prometida, ou que já foi prometida tantas vezes que virou cenário.

Ficar parada tem alguns sinais que valem atenção:

  • Você não sabe exatamente o que está esperando, só sabe que ainda não chegou.
  • O tempo da espera não tem prazo, nem conversa, nem combinado.
  • Você reorganiza sua agenda, seu humor e seus planos em volta de uma possibilidade.
  • Quando alguém pergunta como você está, a resposta depende do outro.
  • A espera já dura mais do que a própria relação durou.

Se três ou mais desses sinais fazem sentido, talvez não seja paciência. Talvez seja medo de levantar da cadeira e descobrir que o portão continua igual, só que agora sem você olhando para ele.

Por que a gente espera demais

Ninguém espera à toa. A gente espera porque ainda tem esperança, e esperança é bonita. Mas às vezes a gente espera porque desistir dá trabalho. Porque admitir que acabou exige luto, e o luto é mais pesado do que a espera. Esperar, nesse caso, é uma forma de não sentir a perda inteira de uma vez.

Tem também a espera que aprendemos cedo, nas mulheres da família. A tia que esperou o marido mudar a vida inteira. A mãe que esperou os filhos crescerem para começar a viver. Muita mulher brasileira foi educada para esperar com elegância, sem reclamar, como se a espera fosse prova de amor. Não é. Amor que só existe na espera é, quase sempre, amor de um lado só.

Como transformar a espera em verbo

Esperar como verbo é tomar algumas decisões enquanto o tempo passa. Não decisões sobre o outro, que essas não cabem na nossa mão, mas sobre o jeito como você vai ocupar o intervalo.

  • Dê nome ao que você espera. Uma resposta, um pedido de desculpas, uma mudança concreta. Espera sem nome não termina nunca.
  • Combine um tempo com você mesma. Não precisa ser um ultimato. Pode ser só uma data na agenda para perguntar: isso ainda faz sentido?
  • Fale. Muitas esperas acabam com uma frase simples: eu estou esperando isso de você, é possível?
  • Continue indo aos lugares. A espera boa cabe dentro de uma vida em movimento.
  • Observe o corpo. Se esperar te deixa ansiosa todos os dias, o corpo já respondeu antes da cabeça.

A hora de levantar do banco

Não existe um sinal mágico, mas existe um cansaço que é diferente dos outros. É quando você percebe que está esperando há tanto tempo que já não lembra quem era antes. Ali, levantar não é desistir do outro. É voltar a escolher você.

Às vezes eu penso que a espera é a insônia do amor: um estado em que a gente não dorme nem acorda, só fica. E ninguém aguenta ficar acordada a vida inteira.

Esperar é verbo porque pede escolha. Você pode escolher esperar com paciência, com a porta encostada e a vida acontecendo. Ou pode escolher levantar, sacudir a poeira da saia e ir ver o que tem do outro lado da rua. As duas escolhas são legítimas. Só não vale ficar parada fingindo que isso é escolher.

E você, está esperando o quê? Se quiser me contar, escreve para mim. Eu leio todas as cartas com calma.


Ilustração em nanquim da Diana, autora do blog

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Escrevo sobre o que a gente sente e não fala no almoço de domingo. Se algum texto te cutucou, me conta. Não prometo resposta pronta, só boa companhia.

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Aqui a Diana conjuga os verbos do afeto: cartas, crônicas e conversas sobre o jeito como a gente se relaciona.

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