Partir

A primeira coisa que ela levou foi a caneca azul.

Não era a mais bonita nem a mais cara. Tinha uma pequena lasca na borda e uma propaganda quase apagada de uma livraria que fechara anos antes. Ainda assim, era a caneca que procurava todas as manhãs, mesmo quando outras estavam limpas no armário.

Colocou-a dentro de uma caixa junto com dois livros, um casaco e um carregador que ninguém sabia a quem pertencia.

Partir costuma ser contado pelo último gesto: a porta fechando, o carro saindo, a chave deixada sobre a mesa. Mas quase nunca começa ali.

Começa quando alguém para de comprar coisas para o mês seguinte.

Quando deixa de contar uma novidade.

Quando passa a imaginar outro endereço.

Quando olha para um objeto comum e pensa: este vai comigo.

Há partidas decididas de uma vez, depois de uma frase que torna impossível continuar. Outras são construídas devagar, entre tentativas, recuos e noites em que a pessoa promete a si mesma que amanhã conversará. O corpo permanece no mesmo sofá, mas alguma parte já começou a mudar de casa.

Partir não é sempre sinal de falta de amor. Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis de aceitar. Às vezes o afeto existe, mas não consegue corrigir o modo como duas pessoas se ferem. Às vezes há ternura, história, desejo e, mesmo assim, não há espaço seguro para continuar.

O amor não transforma automaticamente incompatibilidade em destino.

Também não deveria servir como justificativa para toda permanência.

Quem parte costuma carregar uma culpa que raramente aparece nas fotografias da mudança. A culpa por desistir, por magoar, por não tentar mais uma vez, por desorganizar a rotina de outras pessoas. Mesmo quando a saída é necessária, há uma espécie de luto por aquilo que poderia ter sido se todos tivessem sabido agir de outra maneira.

Mas ninguém vive apenas de possibilidades.

Chega um momento em que é preciso olhar para o que existe, não para a versão revisada da história.

Partir exige lidar com objetos. Separar livros, panelas, documentos, senhas, contas, fotografias. A vida prática tem pouco respeito pelo drama. Enquanto alguém tenta compreender o fim de uma relação, a internet precisa ser transferida e a geladeira precisa caber no elevador.

Talvez por isso as mudanças sejam tão exaustivas. Não basta sentir. É preciso etiquetar caixas.

A caneca azul foi a primeira a chegar ao apartamento novo. Ficou alguns dias sozinha no armário, ao lado de um copo de requeijão. Na primeira manhã, ela fez café e percebeu que não sabia onde havia guardado o açúcar.

Sentou no chão da cozinha.

Bebeu sem adoçar.

Pela janela, dava para ver o telhado do prédio vizinho e uma senhora estendendo lençóis no varal. Nada parecia grandioso. Não houve música, revelação ou certeza de que tudo daria certo.

Houve apenas uma caneca quente entre as mãos.

Partir não elimina o que foi vivido.

Não apaga o afeto.

Não transforma toda lembrança em erro.

Às vezes, partir é apenas reconhecer que uma história chegou ao ponto em que continuar exigiria perder mais do que a despedida leva.


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Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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