Carta para mim, antes de eu aprender que ir embora não é um fracasso

Você ainda acredita que ir embora é perder.

Por isso vai ficar mais tempo do que deveria em muitos lugares.

Vai chamar de paciência aquilo que já é medo. Vai dizer que ninguém é perfeito quando alguém repetir o mesmo gesto que prometeu mudar. Vai acreditar que amar também significa suportar e usará essa frase contra si mesma.

Eu queria poder impedir.

Mas talvez você não me escutasse.

Na época, qualquer conselho para partir parecia vir de alguém que não entendia a complexidade da relação. As pessoas viam os momentos ruins. Você conhecia os bons. Sabia do café feito de manhã, das piadas particulares, da música escolhida no carro e da forma como ele segurava sua mão quando tinha medo.

Era difícil explicar que a pessoa que machucava você também sabia ser gentil.

Essa contradição manteve você ali.

Você não era ingênua. Apenas acreditava que as partes boas revelavam a verdade e as ruins eram desvios. Levou tempo para perceber que uma pessoa também é o modo como age quando está frustrada, contrariada ou segura de que não será abandonada.

Você esperou a versão boa voltar.

Ela sempre voltava.

Só nunca ficava.

A cada reconciliação, você se sentia responsável por preservar a paz. Escolhia palavras, evitava assuntos e monitorava o próprio tom. Quando algo explodia, procurava o erro em você porque isso oferecia uma sensação de controle. Se a culpa fosse sua, talvez bastasse agir melhor.

Você agiu melhor.

Não resolveu.

Haverá uma noite em que você ficará sentada no chão do banheiro, tentando chorar sem fazer barulho. Não será a pior noite. Apenas a primeira em que uma pergunta aparecerá com clareza:

“Por que eu preciso diminuir para isso continuar?”

Você não irá embora naquele dia.

Ainda voltará atrás, acreditará em promessas e tentará mais uma vez. Não se envergonhe disso. Entender uma coisa não significa estar pronta para agir sobre ela.

A coragem não chegou inteira.

Veio em partes.

Primeiro, você contou a verdade para uma amiga. Depois, guardou algum dinheiro. Começou a imaginar um lugar onde pudesse dormir sem medo de acordar alguém com um movimento errado. Um dia, percebeu que a vida fora daquela relação já não parecia mais assustadora do que a vida dentro dela.

Quando finalmente saiu, não sentiu liberdade imediatamente.

Sentiu culpa.

Saudade.

Dúvida.

Vontade de voltar.

Isso não significava que a decisão estava errada. Significava apenas que perder uma relação também dói quando a relação fazia mal.

Estou escrevendo daqui, de alguns anos depois.

Você ainda terá dificuldade de confiar em certas coisas. Ainda pedirá desculpas sem necessidade e se assustará com silêncios que não representam perigo. Mas voltará a ocupar espaço.

Vai rir alto sem verificar o rosto de ninguém.

Vai discordar sem preparar uma fuga.

Vai descobrir que paz não é o intervalo entre duas crises.

Eu não consigo ensinar você a ir embora antes do tempo que levou para aprender.

Posso apenas dizer que, quando finalmente fechar a porta, não haverá fracasso esperando do outro lado.

Haverá uma vida.

Desorganizada, incompleta e sua.


As Cartas Anônimas são relatos literários inspirados nas contradições dos vínculos humanos. Nomes e detalhes identificáveis não são utilizados.

Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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