Esperar

A senha era 347.

No painel da clínica, o número 329 piscava em vermelho. Havia uma televisão ligada sem som, uma criança empurrando um carrinho pela fileira de cadeiras e uma senhora que perguntava à recepcionista, a cada cinco minutos, se o médico ainda demoraria.

Esperar raramente é um gesto vazio. Enquanto o tempo passa, a cabeça trabalha.

A pessoa que demora a responder pode estar ocupada, desinteressada, dormindo, dirigindo, pensando no que dizer ou simplesmente vivendo uma tarde sem olhar o celular. Em poucos minutos, quem espera constrói versões suficientes para preencher uma temporada inteira. Na ausência de informação, a imaginação assume o plantão.

Nem toda espera tem o mesmo peso.

Esperar alguém chegar para o jantar é diferente de esperar que alguém finalmente decida ficar. Esperar um pedido de desculpas é diferente de esperar respeito. Esperar que uma fase difícil passe não é o mesmo que esperar, por anos, que uma pessoa se transforme naquilo que nunca prometeu ser.

O verbo parece passivo, mas consome energia. Há quem organize a vida inteira em torno de algo que talvez aconteça. Mantém a agenda aberta, adia escolhas, recusa convites, interpreta sinais. O futuro vira uma sala de espera onde ninguém chama pelo nome.

Em algumas relações, esperar é parte do cuidado. Pessoas atravessam lutos, adoecem, perdem trabalho, ficam confusas, precisam de tempo. Nem toda demora é desprezo. Nem toda distância é despedida. Conviver exige tolerar ritmos que não são os nossos.

Mas esperar também pode ser uma maneira elegante de não encarar uma resposta já dada.

A pessoa não disse não com todas as letras, mas nunca disse sim com ações.

Não terminou, mas também não começou.

Não foi embora, mas deixou de chegar.

Há silêncios que mantêm a porta entreaberta porque fechá-la exigiria assumir uma decisão. Quem está do lado de fora continua esperando, não porque recebeu uma promessa, mas porque a falta de clareza alimenta esperança suficiente para mais um dia.

Esperar com dignidade talvez dependa de saber o que fazemos enquanto o tempo passa.

Continuamos vivendo?

Mantemos nossos compromissos?

Somos capazes de desejar outras coisas?

Ou ficamos parados diante de uma tela, atribuindo significado ao horário da última visualização?

A espera que preserva a vida tem bordas. Ela reconhece limites, combina prazos, aceita mudanças e não exige que alguém suspenda a própria existência. A espera que adoece não tem relógio. Tudo pode ser amanhã, desde que nunca seja hoje.

Na clínica, o painel avançou lentamente. Quando o número 347 apareceu, a pessoa que esperava quase não percebeu. Estava lendo uma mensagem antiga, enviada três meses antes, procurando nela uma certeza que não existia quando foi escrita e não surgiria agora.

A recepcionista chamou novamente.

Dessa vez, ela levantou.

Guardou o celular.

Entrou.

Há momentos em que esperar é necessário.

Em outros, o que falta não é paciência.

É atender quando a vida finalmente chama.


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Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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