O amor que não aprendeu a falar: uma carta sobre silêncios e gestos

Você nunca perguntou se eu estava feliz.

Perguntava se eu tinha comido, se havia levado guarda-chuva e se o ônibus ainda passava perto de casa. Durante muito tempo, achei que faltava alguma coisa nas suas perguntas.

Eu queria conversas profundas.

Queria que você percebesse meus silêncios, sentasse ao meu lado e dissesse exatamente a frase que eu precisava ouvir, embora eu mesma não soubesse qual era. Via mães e filhas conversando em filmes e imaginava que o nosso amor tinha algum defeito de fabricação.

Nós falávamos de contas, receitas e pessoas da família.

Você me contava quem havia casado, separado ou comprado uma geladeira nova. Eu respondia enquanto olhava o celular. Quando tentava falar de alguma coisa difícil, você procurava uma solução antes que eu terminasse.

“Você precisa dormir mais.”

“Isso é falta de se alimentar direito.”

“Não pensa nisso agora.”

Eu saía dessas conversas com a sensação de não ter sido compreendida.

Anos depois, comecei a perceber as coisas que você dizia sem falar.

As frutas cortadas num pote quando eu precisava sair cedo.

O dinheiro escondido na minha bolsa quando você sabia que eu estava apertada.

A toalha limpa sobre a cama.

O modo como deixava a luz da varanda acesa até eu chegar, mesmo dizendo que não estava me esperando.

Seu amor sempre teve tarefas.

Talvez porque ninguém tivesse ensinado você a colocá-lo em frases.

Não quero romantizar tudo. Houve momentos em que precisei de palavras e não as recebi. Houve perguntas que você não fez, dores que não soube enxergar e escolhas minhas que tentou corrigir antes de conhecer.

Nós também nos ferimos.

Amar alguém não transforma automaticamente essa pessoa em alguém capaz de nos compreender.

Mas hoje consigo olhar para você com menos exigência e mais curiosidade. Penso na menina que você foi, na casa onde cresceu e nas conversas que provavelmente também não teve. Imagino quantas vezes precisou seguir em frente sem que alguém perguntasse se estava pronta.

Talvez você tenha me oferecido a linguagem que conhecia.

E eu passei anos cobrando fluência em outra.

Ainda não sei como conversar com você sobre algumas coisas. Quando tento, voltamos rapidamente para o preço do supermercado ou para a consulta de uma tia. Às vezes me irrito. Em outras, aceito sentar à mesa e separar feijão enquanto você comenta a vida dos vizinhos.

Há intimidades que acontecem de frente.

A nossa quase sempre aconteceu lado a lado, com as mãos ocupadas.

Queria dizer que reconheço isso agora.

Também queria dizer que continuo precisando de algumas palavras. Não porque os seus gestos sejam insuficientes, mas porque aprendi que amor não precisa escolher uma única linguagem.

Talvez um dia eu consiga perguntar se você foi feliz.

Talvez você mude de assunto.

Ainda assim, vou permanecer um pouco mais na cozinha.


As Cartas Anônimas são relatos literários inspirados nas contradições dos vínculos humanos. Nomes e detalhes identificáveis não são utilizados.

Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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