Nós éramos muito bons em voltar.
Talvez melhores do que em ficar.
Depois de cada briga, havia uma conversa longa, uma madrugada inteira acordados e promessas feitas com uma sinceridade que durava o suficiente para parecer verdadeira. Você dizia que nunca tinha sentido nada igual. Eu acreditava porque também não tinha.
Nada entre nós era pequeno.
Uma demora para responder se transformava numa discussão sobre abandono. Um comentário atravessado abria arquivos antigos. Um fim de semana bom parecia a confirmação de que finalmente tínhamos aprendido. Na semana seguinte, estávamos outra vez tentando descobrir quem havia ferido quem primeiro.
Durante muito tempo, chamei isso de intensidade.
A palavra era bonita e nos protegia de perguntas menos românticas.
Por que estar junto doía tanto?
Por que a paz parecia tédio?
Por que precisávamos quase perder um ao outro para demonstrar afeto?
Quando as coisas estavam tranquilas, um de nós encontrava uma fresta. Uma pergunta feita no tom errado, uma lembrança antiga, um medo sem prova. Logo estávamos de volta ao lugar que conhecíamos melhor: a beira do fim.
Ali funcionávamos.
Você finalmente dizia o que sentia. Eu finalmente dizia do que precisava. Chorávamos, nos abraçávamos e prometíamos nunca mais chegar tão perto de terminar.
Mas era justamente perto do término que parecíamos mais apaixonados.
O cotidiano não nos interessava do mesmo modo. Não sabíamos o que fazer com domingos comuns, conversas sem crise ou semanas em que ninguém precisava ser salvo. A tranquilidade não oferecia a mesma descarga. Sem a ameaça da perda, o amor parecia diminuir.
Hoje entendo que confundimos profundidade com turbulência.
Sentir muito não nos ensinou a cuidar melhor.
As nossas reconciliações eram bonitas porque concentravam, em poucas horas, tudo o que não conseguíamos sustentar por muitos dias. Havia escuta, carinho, desejo, vulnerabilidade. Depois voltávamos à rotina e perdíamos, um pouco de cada vez, aquilo que jurávamos ter compreendido.
Não escrevo para dizer que não foi amor.
Seria simples demais.
Havia amor, mas havia também medo, hábito, vaidade e uma necessidade constante de confirmação. Havia duas pessoas tentando garantir o próprio valor através da capacidade de serem escolhidas outra vez.
Nós sempre nos escolhíamos depois da ameaça.
Quase nunca antes dela.
Quando finalmente terminamos, esperei pela volta. Nosso relacionamento tinha me ensinado que todo fim era apenas uma etapa da reconciliação. Passei semanas imaginando a mensagem, o encontro, as frases que diríamos.
A mensagem não veio.
No começo, achei que isso provava que você nunca tinha me amado.
Depois percebi que talvez fosse a primeira coisa diferente que fizemos.
Ainda sinto falta da força com que você me abraçava depois de uma briga. Mas já não desejo a briga necessária para receber aquele abraço.
Essa é a parte de nós que consegui deixar para trás.
As Cartas Anônimas são relatos literários inspirados nas contradições dos vínculos humanos. Nomes e detalhes identificáveis não são utilizados.



