O fim silencioso das amizades que acabam sem briga

Não sei quando deixamos de ser amigas.

Seria mais fácil se houvesse uma data.

Uma discussão, uma frase imperdoável, uma porta batida. Algo que eu pudesse apontar quando alguém perguntasse por você. Mas não aconteceu nada assim. Nossa amizade foi diminuindo sem fazer barulho.

Primeiro, paramos de nos ver toda semana.

Depois, as mensagens ficaram mais curtas. Você demorava a responder e eu dizia que entendia. Eu também estava ocupada, cansada, tentando organizar uma vida que nunca ficava organizada por muito tempo.

Ainda mandávamos felicitações no aniversário.

Ainda curtíamos fotografias.

Ainda dizíamos “precisamos marcar” com a convicção de quem acredita que desejar um encontro é quase a mesma coisa que realizá-lo.

Não era.

Durante anos, eu soube os nomes das pessoas do seu trabalho, o que você pedia quando estava triste e qual versão de uma história você contava para sua mãe. Depois comecei a descobrir coisas sobre você junto com todo mundo.

Uma mudança de emprego.

Uma viagem.

Um relacionamento.

Você aparecia sorrindo em fotografias de dias que eu não sabia que existiam.

Não fiquei com raiva. Ou fiquei, mas de um jeito pouco elegante. Uma raiva misturada com vergonha, porque ninguém quer admitir que se sente substituído numa amizade adulta. Parece infantil querer ser escolhida quando todos têm contas, compromissos e outras pessoas para amar.

Então fingi que não me importava.

Quando alguém perguntava se ainda falávamos, eu respondia que sim. Afinal, havia uma conversa aberta no aplicativo. A última mensagem era minha. Isso parecia suficiente para manter você no presente.

Às vezes penso em escrever perguntando o que aconteceu.

Mas o que você responderia?

Que a vida ficou corrida?

Que nos afastamos?

Que não houve intenção?

Tudo isso seria verdade e, ao mesmo tempo, não explicaria nada.

Talvez amizades não terminem apenas quando alguém erra. Talvez algumas acabem porque duas vidas deixam de fazer espaço uma para a outra. Nenhuma das duas percebe no primeiro mês. Quando percebe, a intimidade já está vivendo no passado.

Ainda encontro você em pequenas coisas.

Uma música que cantamos errado numa viagem.

Um prato que você odiava.

A expressão que comecei a usar depois de conviver tanto com você que nossas frases se misturaram.

Não sei se sinto falta de quem você é agora. Não conheço essa pessoa.

Sinto falta de quem éramos juntas.

Há uma diferença, embora eu tenha levado tempo para entender.

Não escrevo para pedir que volte. Também não quero transformar o que tivemos numa história triste apenas porque não durou para sempre. Você esteve comigo em anos que teriam sido muito mais difíceis sem a sua presença.

Isso não desaparece porque nós desaparecemos uma da vida da outra.

Ainda guardo uma fotografia nossa numa caixa. Você está de olhos fechados e eu estou rindo de alguma coisa fora do enquadramento. Nenhuma de nós parece preocupada em registrar um momento importante.

Talvez por isso ele tenha se tornado um.

Espero que esteja bem.

E que, de vez em quando, alguma coisa também faça você lembrar de mim sem precisar decidir o que fazer com essa lembrança.


As Cartas Anônimas são relatos literários inspirados nas contradições dos vínculos humanos. Nomes e detalhes identificáveis não são utilizados.

Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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