O fim da espera: quando o tempo do outro deixa de ser o seu

Você me disse que precisava de tempo.

Não falou quanto.

Naquele dia, achei razoável. Todos precisam de tempo para organizar pensamentos, entender sentimentos, terminar uma semana difícil ou descobrir o que desejam fazer com a própria vida. Eu não queria ser a pessoa que pressiona, exige respostas imediatas ou transforma incerteza em culpa.

Então esperei.

No começo, a espera tinha uma aparência digna. Eu continuava trabalhando, encontrava amigos, lavava roupa e respondia que estava tudo bem quando alguém perguntava por você. Não estava exatamente bem, mas eu ainda acreditava que a falta de resposta fazia parte de alguma resposta mais cuidadosa que você estava preparando.

Depois comecei a medir os dias.

Não no calendário, porque isso pareceria excessivo. Eu media pelas coisas pequenas. O leite que venceu. A planta que deu uma folha nova. A série que terminamos de assistir separadamente. O restaurante que abriu perto da sua casa e que eu soube pelas redes sociais, não por você.

Toda vez que o telefone acendia, meu corpo reagia antes de mim.

Nunca era você.

Ou era, mas apenas para perguntar alguma coisa prática, mandar uma notícia ou dizer que ainda estava confuso. Eu aceitava essas aparições como quem recebe uma prova de vida. Bastava uma mensagem curta para que eu renovasse a espera por mais alguns dias.

Você nunca pediu isso de forma direta.

Talvez essa seja a parte que mais me constrange admitir.

Eu fiz sozinha.

Transformei sua indecisão numa promessa. Dei profundidade aos seus silêncios, intenção aos seus retornos ocasionais e delicadeza àquilo que, visto de fora, talvez fosse apenas ausência.

Não escrevo para acusar você.

Durante muito tempo, culpar você foi outra maneira de continuar ligada à nossa história. Se eu encontrasse uma explicação suficientemente ruim para o que aconteceu, talvez pudesse preservar a ideia de que aquilo havia sido grande. Se você tivesse medo, traumas, dificuldade de se entregar ou um passado complicado, então minha espera teria algum sentido.

Agora penso que talvez você só não soubesse o que queria.

E eu também não.

Eu dizia que queria uma resposta, mas aceitava qualquer coisa que adiasse o fim. Dizia que precisava de clareza, mas sobrevivia das partes nebulosas. Enquanto nada fosse decidido, eu ainda podia imaginar um futuro diferente daquele que os fatos mostravam.

A espera me poupava de perder você por completo.

Também me impedia de voltar para mim.

Não sei em que dia isso mudou. Não houve uma última conversa nem uma frase definitiva. Apenas percebi, numa tarde comum, que havia passado meses me preparando para uma vida que dependia de uma decisão sua.

Eu tinha deixado um lugar vazio na agenda, na casa e dentro de mim.

Você talvez voltasse.

Mas eu já não queria continuar ausente enquanto isso.

Não precisa responder esta carta. Talvez ela nunca chegue até você. Escrevo porque, durante muito tempo, esperei que suas palavras encerrassem o que suas ações já tinham terminado.

Agora posso fazer isso sem você.

Não porque deixei de sentir.

Porque finalmente voltei a ter onde estar.


As Cartas Anônimas são relatos literários inspirados nas contradições dos vínculos humanos. Nomes e detalhes identificáveis não são utilizados.

Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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