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Escutar

  • julho 24, 2026

O homem da assistência técnica pediu que ela repetisse o barulho da máquina.

Ela tentou imitar: um rangido curto, depois três batidas secas e uma vibração que parecia vir do fundo. Ele ouviu com atenção, inclinou a cabeça e perguntou se acontecia durante a centrifugação.

Ninguém escuta com tanta seriedade quanto alguém tentando descobrir por que uma máquina parou de funcionar.

Nas conversas entre pessoas, a atenção costuma ser menos cuidadosa.

Enquanto o outro fala, pensamos na resposta. Organizamos defesa, reunimos provas, escolhemos exemplos que confirmem nossa versão. Em vez de escutar, aguardamos uma brecha. Às vezes a pessoa termina uma frase e recebe como resposta algo que já estava pronto antes de ela começar.

Escutar é um verbo exigente porque pressupõe a possibilidade de mudança.

Quem escuta de verdade não entra numa conversa apenas para vencer. Aceita que talvez tenha entendido errado, ferido sem perceber ou ignorado algo importante. Essa abertura não garante concordância, mas impede que o diálogo vire uma disputa entre dois monólogos.

Há quem fale muito e diga pouco. Há quem precise de longos desvios para chegar ao assunto principal. Há quem conte uma história sobre o trabalho quando, na verdade, está tentando dizer que se sente sozinho. Escutar exige atenção ao que foi dito e também ao esforço necessário para dizer.

Isso não significa adivinhar pensamentos. Relações não deveriam depender de telepatia. Quem precisa de algo também tem responsabilidade de tentar nomear. Mas algumas pessoas aprenderam cedo que falar tinha consequências. Foram interrompidas, ridicularizadas, corrigidas antes de serem compreendidas. Quando finalmente encontram espaço, podem demorar a confiar nele.

Escutar é ajudar a conversa a não se arrepender de ter começado.

Também há momentos em que a escuta precisa de limite. Ouvir não significa aceitar agressão, manipulação ou repetição infinita de uma justificativa que nunca se transforma em ação. A escuta não obriga ninguém a permanecer disponível para qualquer coisa, a qualquer hora.

A boa escuta não é servidão.

É presença com contorno.

Talvez por isso seja tão rara. Exige tempo, curiosidade e um tipo de humildade que não aparece em frases bonitas. É perguntar “o que você quis dizer?” em vez de escolher a interpretação que mais favorece nossa indignação. É confirmar se entendemos. É resistir à vontade de transformar a dor do outro numa história sobre nós.

Na assistência técnica, o homem abriu a máquina e encontrou uma moeda presa perto do tambor. Era pequena, quase invisível, mas suficiente para produzir todo aquele ruído.

Ele a colocou sobre o balcão.

Disse que o aparelho estava funcionando.

Nem todo problema de comunicação será resolvido com tanta facilidade. Pessoas não têm parafusos acessíveis nem manual de fábrica. Ainda assim, há conversas em que o barulho parece enorme e a causa está num detalhe repetido por meses sem que ninguém tenha parado para ouvir.

Escutar não garante que tudo continue.

Mas permite que, ao menos uma vez, duas pessoas estejam na mesma conversa.


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Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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