Permanecer não é ficar parado.
Na manhã em que o encanador veio trocar a torneira da cozinha, ele pediu um pano velho, uma chave de fenda e alguém que segurasse a peça enquanto apertava o parafuso por baixo da pia. A torneira antiga tinha começado a pingar havia meses. Primeiro uma gota tímida, depois um ruído regular que atravessava a madrugada. Ninguém lembrava exatamente quando o problema começara. Só sabiam que, em algum momento, tinham se acostumado.
Acontece com quase tudo o que permanece por tempo suficiente. A presença deixa de ser percebida, o defeito vira parte do ambiente e certas conversas são adiadas porque amanhã parece uma data inesgotável.
Há quem confunda permanência com resistência. Como se ficar fosse suportar qualquer coisa em nome da história construída, do tempo investido ou da versão antiga de uma relação. Mas permanecer não deveria exigir que alguém desapareça de si para manter outra pessoa por perto. Isso não é compromisso. É abandono com endereço conhecido.
Também existe o erro contrário: acreditar que toda inquietação é sinal de que chegou a hora de partir. Uma relação atravessa períodos sem novidade, semanas cansadas, meses em que ninguém tem uma grande revelação sobre a vida. Há jantares em silêncio porque os dois estão exaustos, domingos em que o programa é lavar roupa e discutir qual produto comprar para tirar mofo do banheiro. Nem sempre a ausência de intensidade significa ausência de afeto. Às vezes significa apenas que a vida entrou na sala e deixou as bolsas sobre o sofá.
Permanecer exige uma disposição menos fotogênica que a paixão. É lembrar de comprar o remédio. É perguntar como foi a reunião e esperar a resposta inteira. É reconhecer quando o outro mudou e resistir à tentação de exigir que volte a ser quem era quando se conheceram.
Quem permanece de verdade não guarda uma pessoa em conserva.
Observa.
Escuta.
Atualiza o modo de amar.
Isso vale para casamentos, amizades, relações familiares e até para a relação que alguém mantém consigo. Há pessoas que sabem acompanhar todos ao redor, mas se abandonam na primeira mudança de rota. Continuam fiéis a planos que já não fazem sentido, a trabalhos que diminuem sua presença, a versões de si criadas para agradar gente que nem está mais por perto.
Permanecer consigo talvez seja a forma mais difícil de permanência. Não porque falte companhia, mas porque ninguém pode fazer esse trabalho no nosso lugar.
A palavra também carrega uma pergunta incômoda: o que ainda sustenta esta presença?
Não a culpa.
Não o medo.
Não a memória de quando tudo funcionava.
O que existe agora?
Há relações em que permanecer é uma escolha viva. Há outras em que é apenas a repetição de um gesto que já perdeu o sentido. De fora, as duas podem parecer iguais. A diferença costuma aparecer nos detalhes: na possibilidade de dizer não, na liberdade de mudar, na curiosidade que ainda existe, no cuidado que não precisa ser cobrado todos os dias.
Quando o encanador terminou o serviço, abriu a torneira e deixou a água correr. Depois fechou. Nenhuma gota caiu.
A cozinha ficou estranhamente silenciosa.
Foi então que perceberam quanto tempo haviam passado ouvindo aquele vazamento sem fazer nada.
Permanecer não é aceitar o som daquilo que está se perdendo.
É notar.
É conversar.
É chamar ajuda quando necessário.
E, quando ainda houver o que cuidar, apertar juntos o parafuso que se soltou.
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