O café esfriou antes da conversa

Nem toda mesa de cafeteria foi feita para encontros.

Algumas existem apenas para confirmar despedidas que ainda não tiveram coragem de receber esse nome.

A mulher chegou primeiro. Escolheu um lugar perto da janela, não porque gostasse da vista, mas porque era o único canto onde a luz da tarde ainda insistia em entrar. Tirou o celular da bolsa, colocou sobre a mesa e virou a tela para baixo. Quem espera olhando o relógio parece ansioso. Quem espera fingindo que não espera parece apenas cansado.

Pediu um café pequeno.

Enquanto a atendente preparava o pedido, ela observou duas crianças discutindo do outro lado da rua sobre quem carregaria uma bicicleta. A discussão durou menos de um minuto. Um dos dois cedeu. Os dois seguiram caminhando.

Achou curioso como algumas pessoas resolvem conflitos antes mesmo de aprender a escondê-los.

O café chegou.

Cinco minutos depois ele entrou.

Reconheceu o lugar, encontrou a mesa e sentou sem pressa.

No começo falaram sobre o trânsito. Depois sobre o frio que demorava para chegar naquele ano. Comentaram um restaurante novo na esquina. Era uma conversa impecável.

Não havia brigas.

Também não havia encontro.

Em determinado momento surgiu um silêncio.

Ela segurou a xícara pelas laterais. O café já não soltava fumaça.

Foi então que percebeu que durante quase quarenta minutos nenhum dos dois havia feito uma pergunta ao outro.

Conversaram o tempo inteiro.

Sem curiosidade.

Existe uma diferença enorme entre falar e querer saber.

Na saída, cada um seguiu para um lado.

À noite, ao encontrar o comprovante da cafeteria dentro da bolsa, ela entendeu que certos dias merecem existir apenas como prova de que o fim raramente chega fazendo barulho.

Às vezes ele chega apenas na temperatura de um café que ninguém percebeu esfriar.


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Foto de Diana

Diana

Codinome de guerreira, dilemas de mulher intensa.

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